Subtraídos Pela Sibutramina

Um cliente recém separado veio me consultar para seu divórcio. Normalmente, o advogado tem conhecimento das razões básicas da separação e dessa vez, mesmo acostumado a ouvir todo o tipo de história ou situação, fiquei surpreso com o relato da causa. Segue um resumo do relato, autorizado por ele:

O ex casal viveu por muitos anos uma relação harmoniosa e sem grandes problemas, inclusive financeiros.

Disse ele que para perder aqueles 15 quilos que ela adquiriu por anos de “felicidade”, procurou um médico “milagroso”, desses que não demoram muito e entram nas páginas policiais pela porta dos fundos.

A promessa de perda de peso foi sendo cumprida com rapidez e sua ex perdeu quase 10 kg em dois meses. Tudo à base dos remédios prescritos e alguns montados em farmácias de manipulação e que recebiam tarja preta, com retenção da receita, etc.

Contou-me ainda que no primeiro mês ela ainda conseguia dar as costumeiras gargalhadas. Era a sua marcante personalidade: uma pessoa animada, sorridente, companheira, amiga e... Gordinha, coisa que ele jamais se importou. Afinal, o amor está dentro da pessoa e não no seu invólucro.

Ocorre que ao mesmo tempo que emagrecia, outra mudança teve inicio. Houve um princípio de perda de cabelo, logo debelada com vitaminas. Depois, veio um sono interminável. Ela não conseguia se divertir à noite como sempre fez, saindo com amigos e participando de noitadas. Chegou mesmo a ficar na cama a maior parte do tempo.

Ele achou que fosse depressão e sugeriu um psicólogo. E foi aí que começou a fase 3, disse ele.

A fase 3 foi a mudança súbita de humor. Dormia sorrindo e acordava com ódio de tudo. Esse ódio foi sendo aos poucos concentrado no meu cliente. Tudo que acontecia de ruim caía no colo dele.

O apetite sexual foi sendo exterminado. As críticas começavam no café da manhã e iam para cama também.

Mas, como assim? Uma mulher faz de tudo para emagrecer, ficar esbelta e bonita para depois não amar mais? Não transar mais?

E foi na fase de “manutenção” da magreza que o casamento tropeçou e caiu. Todo esse processo durou em torno de dois anos

Com o fim do casamento, como sempre acontece infelizmente, desapareceu uma bela família com um casal de filhos adolescentes que contavam em encontrar seus pais em casa todos os dias. Uma pena...

Disse-me ele que ela cotidianamente o olhava com verdadeiro ódio; algo incontrolável. Seus olhos perderam o brilho sereno. Nesse momento, meu cliente chorou e disse entre lágrimas: perdi minha mulher para a tal da Sibutramina!

Sibutramina? Indaguei com curiosidade. Pelo que sei, é um regulador de apetite e apenas perigoso para cardíacos, por exemplo.

A Sibutramina não é só um remédio perigoso para o coração, ele pode armar situações que levam à depressão e comportamento agressivo. Nesses casos os médicos que receitam esse medicamento deveriam também observar o comportamento psicológico dos seus pacientes. Perguntar sobre a sua vida! Indagar...

Então, você culpa exclusivamente a tal da sibutramina, perguntei? Quem vou responsabilizar; desde que foi a partir do uso dos remédios que ela mudou? – Respondeu-me com outra pergunta.

Sei que depende de estudos científicos e do famoso “cada caso é um caso”.

Ainda deixo claro que ouvi apenas um lado da história, mas fiquei impressionado. Um matrimônio acabar dessa maneira, sem traições, sem violência... Tudo com base numa súbita mudança de comportamento psicológico.

Há anos o brasileiro vem exagerando no uso de medicamentos que combate a depressão, a ansiedade e a obesidade. E o país é considerado um dos campeões mundiais no consumo de psicotrópicos. Assustador...

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