Somos Todos Iguais

Após ler comentários fantásticos sobre “Intocáveis” (“Intouchables”, no original), abri um enorme sorriso quando soube que o filme iria estrear na última sexta-feira no Brasil. Estou, desde o final do ano passado, torcendo para a película não correr direto para as prateleiras – como acontece com tantos bons filmes cult – e passar necessariamente pelas telonas. O longa se tornou um fenômeno de bilheteria mundial. Sem apelar para efeitos especiais e lutas sangrentas, o filme arrecadou 360 milhões de dólares e, com isso, passou a ser o segundo título mais visto na história do cinema francês. Quer mais? Ok!  “Intocáveis” também recebeu nove indicações ao César, o Oscar francês. Com tais referências, eu estava de dedos cruzados para o filme chegar logo aqui no Brasil. Sim, total insanidade de uma cinéfila insaciável. E, depois de assistir, sou obrigada a dizer que discordei de quase todas as críticas que li a respeito. Não, não estou dizendo que não gostei do filme. Muito pelo contrário. É belíssimo, tem um roteiro fantástico, atuações irretocáveis e uma direção minuciosa. Entretanto, discordo do olhar que as pessoas lançaram sobre “Intocáveis”. Eu talvez não tenha entendido e sentido o filme da mesma forma que a maioria das pessoas. Vou explicar!

O filme conta a história de um milionário que, após sofrer um acidente, fica tetraplégico. François Cluzet (“Um Novo Caminho” e “Até e Eternidade”) enfrenta o árduo exercício de passar emoção, carisma e veracidade, movendo apenas os músculos da face. Cluzet tem uma atuação brilhante, provavelmente a melhor de sua carreira. A questão é que ele precisa de muitos cuidados – e como tem dinheiro para isso – sua casa é repleta de funcionários a seu dispor. Entretanto, não é muito fácil conseguir colaboradores que, além de desempenharem o trabalho de forma correta, consigam deixar o patrão realmente satisfeito. O problema não está na qualificação, no número de diplomas e nem nas referências dos candidatos. Como o filme deixa claro, para ser um bom “cuidador” é preciso muito mais do que um currículo impecável. E é nesse momento que aparece na vida deste aristocrata um homem simples – em alguns momentos, até rude –, direto, franco e pobre (interpretado pelo maravilhoso Omar Sy). Um homem que não têm uma qualificação invejável, mas que tem diversos outros atributos. Um homem moldado pelo sofrimento, pela privação, pelo destino. Ele vai à casa do milionário, no dia em que o mesmo está fazendo um processo seletivo para “cuidador”, apenas para conseguir uma assinatura e continuar recebendo o seguro desemprego. Ele jamais imaginaria ser contratado. Porém, o improvável acontece!

Bem, a maioria dos críticos e das pessoas que assistiram, disseram-me que gostaram do filme, pois o mesmo mostra como pessoas podem agir de forma positiva quando o assunto é preconceito – pois o “cuidador” em questão é afrodescendente. Outros afirmaram que o filme é interessante porque retrata as diferenças sociais na França neste século XXI. E ainda, outro grupo, disse que o filme foi ótimo, afinal conseguiu mostrar, de forma leve, a amizade improvável entre duas pessoas de "universos" diferentes. Eu discordo completamente. A meu ver, "Intocáveis" é um filme que fala apenas e estritamente da pena – ou da falta dela. O que fez o milionário contratar aquele “cuidador” não foi piedade por ele ser negro, pobre e sem instrução. O aristocrata tetraplégico não teve misericórdia do possível “hipossuficiente”. O “cuidador” foi escolhido, pois, ele encarou o ricaço como igual, mesmo ele estando numa cadeira de rodas, privado de mover a maior parte do seu corpo. Não houve pena na relação entre os dois. Não houve clemência nem indulgência. Eles se tratavam como iguais, cada qual com as suas características. Nenhuma pessoa, meus amigos, é digna de pena. Somos todos apenas dignos de amor e compreensão. Todos somos capazes de mudar nossas vidas, de melhorar, de progredir, de sonhar e realizar. Dificuldades? Todos nós enfrentamos, de formas distintas, é claro. O olhar de pena apenas nos destrói. Quem olha o outro com misericórdia é porque se sente, de alguma forma, superior. E, afirmo: não há superioridade na vida. Todos nascemos e iremos morrer. Somos iguais! O que há neste mundo são pessoas com características diferentes e devem ser respeitadas em suas particularidades. Umas têm mais dinheiro, outras, menos. Somos de raças diversas, de religiões diferentes, temos opções sexuais distintas... Mas somos todos iguais. E "Intocáveis" é um filme raro por causa disso: conseguimos assistir, durante quase duas horas, a um filme onde duas pessoas, com características completamente diferentes e vivendo inúmeros problemas diversos, se respeitarem e se tratarem como iguais. Se começarmos a tratar os outros como gostaríamos de ser tratados, com certeza, construíremos um mundo melhor. Pense nisso!

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