Silêncio Colorido no Último Volume

Silêncio. Ele costumava me incomodar. Na adolescência, com toda minha hiperatividade, era capaz de assistira a televisão, ouvir rádio e navegar na Internet ao mesmo tempo. Tudo em busca de sons, diálogos, entretenimento. Creio, inclusive, que tantos ruídos tornavam-se anestésicos, uma espécie, talvez, de analgésicos. Uma fuga sorrateira da realidade, abrigando-me no mundo dos sons.  O barulho me protegia, evitando que eu conseguisse escutar alguma coisa. E eu só consigo perceber isso hoje, quando me pego, novamente, usando a música para parar de pensar, aliviar a mente, esquivar-me da realidade. Eu ligo o iPod e desligo o cérebro. É que, com muito barulho, eu penso menos no que importa, afogando-me num profundo mar de som. Pergunto, então: será que com outras pessoas é assim também?

Em contrapartida, passo a acreditar que o silêncio diz tantas coisas que deveria ser mais escutado. O silêncio de um olhar pode, por exemplo, aniquilar um inimigo ou traduzir as mais lindas palavras de amor. Charles Chaplin dizia que "o som aniquila a grande beleza do silêncio". E, depois de viver quase três décadas imersa em muito barulho, eu concordo plenamente.

E passei a concordar ainda mais depois de assistir ao polêmico "O Artista" ("The Artist", no original). Eu juro que, mesmo adorando filmes "cults" e sendo apaixonada pelo cinema europeu, fiquei com receio de ver o filme. Todos os meus amigos já o tinham rotulado: "preto e branco, mudo e francês!". E eu aposto que a maioria das pessoas que já ouviu falar da película têm essas três características como informações principais. Será que alguém se perguntou sobre o que é o filme, ou sobre o elenco, a direção, a edição? Será que alguém já imaginou que o filme "preto e branco, mudo e francês" pode ser uma grande metalinguagem? Será?

O "preto e branco", de fato, não é característica mais "excêntrica" de "O Artista". Não raro, diretores fazem inserções ou até películas inteiras monocromáticas. "A Fita Branca" (dirigido por Michael Haneke), "A Lista de Schindler" (Steven Spielberg), "Tetro" (Francis Ford Coppola), entre outros. Creio que o que mais chama atenção na descrição de "O Artista" seja o silêncio.

Este é o seu grande tabu. E o diretor Michel Hazanavicius, que também é o responsável pelo roteiro, soube trabalhar magistralmente para que o som não fosse negligenciado, mas sim, exaltado. Em determinado momento do filme – e faço votos de que esta cena seja marcante para todos  – o protagonista assunta-se com o fim do silêncio. Justamente o inverso do que vivemos. O barulho de um copo o faz despertar de um silêncio profundo. E, concomitantemente, um filme "preto e branco, mudo e francês" nos faz questionar anos de um barulho agudo!

É uma pena que "O Artista" esteja em décimo lugar na lista dos mais vistos no Brasil. E é uma lástima ainda maior que o filme não tenha ficado em cartaz em Niterói. Mais uma vez, meu destino foi cruzar a Guanabara pelo amor à sétima arte. No entanto, tenho esperança de que, em contrapartida, a película seja ainda mais premiada do que já foi. Só no Oscar, foram dez indicações. Sem contar os prêmios já arrematados. Os atores Jean Dujardin e Bérénice Bejo merecem não apenas indicações, mas, sim, estatuetas em suas estantes. Jean Dujardin já ganhou o Globo de Ouro, o BAFTA e é o favorito para o Oscar. E Bérénice Bejo merece levar para casa o prêmio de Melhor Atriz Coadjuvante – no típico caso de "actress in a supporting role" que rouba a cena.

Bem, a verdade é que pensei que fosse sentir falta de diálogos. E de cores! E, na verdade, constatei que o filme não precisa de uma só palavra. E que as cores foram completamente descartáveis. “O Artista” é tão bom que não precisou se valer destes recursos. A verborragia é inútil na maioria dos casos. E tanta definição de cores, tantos efeitos especiais são simplesmente dispensáveis. O sentimento, a verdade, o caráter, a ética, enfim, tantas coisas podem ser disseminadas nas ondas pacíficas do silêncio e reverberarão eternamente na escuridão do infinito. E, enquanto isso, vivemos num mundo tão perturbadoramente barulhento, tão ilusoriamente colorido. Será que tamanho ruído e tanta profusão de cores são propositais para não nos permitir ouvir o que realmente importa e nos impedir de ver o que deve ser esquecido?

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