Sabiá Fugiu Pro Terreiro

Quando eu era criança ouvia uma música popular que me deixava triste e sempre muito intrigado,  pois apesar de todo seu discorrer, não sabia no que resultaria, nunca soube o final daquela estória. Dizia: “Sabiá lá na gaiola fez um buraquinho, voou, voou, voou, voou... E a menina que gostava tanto do bichinho,chorou, chorou, chorou, chorou. Sabiá fugiu pro terreiro, foi cantar no abacateiro, e a menina vive a chamar, vem cá sabiá, vem cá...”        Quando abri a caixa de mensagens, entre as tantas que abro diariamente, vi uma mensagem do Fernando Paulino, comunicando o falecimento da colega Lygia Magalhães. Cheguei atrasado ao abrir da caixa. Já passavam das cinco da tarde e o “Trem do Maruí” já havia partido. Não tive tempo de assistir a ultima cena.

Tive a imediata sensação de que o sabiá fugiu pro terreiro, foi cantar lá no abacateiro... 

A mesma sensação de perda e incompreensão, sentimento tosco e indefinido, como as mesas de bar que compartilhamos, por acidente e  companheirismo. Ultimamente, sempre que saía do jornal, especialmente às sextas feiras, caminhando pela Visconde de Sepetiba, ouvia o grito do outro lado da rua: “Edgard!!! Não vá assim! Venha tomar uma cerveja com a gente! Invariavelmente, tomava “umas” e muitas conversas, algumas mais sérias, outras nem tanto, ou quase nada... Lygia era uma dessas pessoas que vivia cercada por muita gente, mas era uma pessoa muito só. Ela com ela, ela com seus botões. Aparentava o oba, oba, a festividade da vida e o tradicional “deixa pra lá!” Mas, em si guardava muita tristeza. Sua e de outros, a constante preocupação com a família, com os amigos, com o alheio. Certamente, não sobrava espaço para que ela pudesse se preocupar consigo mesma. Tinha estado com ela no dia anterior à sua passagem. Além do normal, havia apenas um estranho brilho nos olhos. Não entendi que era um gesto de adeus, que certamente nem ela tinha consciência. Além de colega, eu era amigo da Lygia. Ouvia suas estórias, ríamos de desencontros e outras situações jocosas e mais que tudo, tomávamos cerveja. Éramos amigos de bar, que por consequência do diálogo etílico, as lavras do verbo se estendem a lugares inconfessáveis da alma. Provoquei inúmeras vezes conversas sobre sua saúde e seus poucos cuidados. Ela era reticente, medrosa e displicente. O passaporte já estava carimbado e ela não se negou a viajar. Sabiá fugiu pro terreiro, foi cantar lá no abacateiro... Vai... Ave que navega e em si carrega todas as dores da vida e da morte. Ao transpor a barreira dos homens, ficará apenas a lembrança dos amigos do bar. Lá, na amplidão do universo, um Deus mais amigo deverá te acolher. Assim seja.

Rua Cônsul Francisco Cruz, 3 - Centro - Niterói/RJ

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