Rua Ator Paulo Gustavo

Desde que vim morar em Niterói, e já se passaram 46 anos, que ouço falar da polêmica do nome da Rua Moreira Cesar. O nome para mim desconhecido na época se tornou objeto de algumas pesquisas. Ele era realmente cruel. Apesar de a homenagem passar despercebida pela maioria, quem ficava sabendo do comportamento do coronel, conhecido como “corta cabeças” e de suas andanças sanguinárias se chocava. Era o contraste entre uma rua charmosa, de lojas de bom gosto e moradores orgulhosos do endereço, com a ostentação diametralmente oposta à nomenclatura.


Quiseram trocar o nome várias vezes, sem sucesso ou sem motivação bastante robusta para decidir a mudança. Agora, por um motivo triste e que provocou comoção de todos, que foi a morte precoce do ator Paulo Gustavo, tomaram a decisão. Paulo conseguia agradar a “gregos e troianos”, e para se ter a sensação de compensar a perda, muitos e muitos resolveram homenageá-lo como uma forma de exorcizar a dor da ausência. Fora estes reais sentimentos existiram, como sempre, aqueles que quiseram se aproveitar do nefasto acontecimento e tirar proveitos. Não é que a Rede Globo não quisesse homenageá-lo. Queriam sim. Mas, ali, como em outras emissoras não se perde uma oportunidade para “dar IBOPE”. Nesse caminhar exageram. Tenho sempre a sensação de uso utilitário em todos os episódios de comoção popular. É como se fossem aproveitar um carneiro. Primeiro vendem a carne, depois as vísceras, a lã, as patas para fazer chaveiros, a gordura para fazer sabão e aí se mistura até os intestinos. Vendem os chifres para ebós, ou para enfeites. Aí, para render mais ainda vendem os olhos para serem comidos em programas de extremos como “No Limite”. Usam-se tudo! Até mesmo falsas histórias para virar literatura de cordel. É o ápice do exagero utilitário.

Mudar o nome de uma rua como a Moreira Cesar tem implicações diversas. Para o lojista tem transtornos, como mudar todo material gráfico, desde cartões, sacolas, envelopes, papel carta, notas fiscais, etc. Tem que rever toda publicidade e trocar o endereço. Tem que comunicar a fornecedores e até clientes. Tem os contratos sociais, que vão sofrer alterações no cartório, junta comercial, e tal. Para esta questão, ao que parece, está resolvido com os cartórios e os lojistas não terão custos. No mais, além do trabalho de refazer tudo, é só uma questão de tempo. Algumas ruas tradicionais daqui que tiveram nomes trocados, “não pegaram”; e são chamados pelo nome anterior. A Praia de Icaraí é um desses exemplos. Com todo respeito que sempre tive, além do carinho, com Dr. Alberto Torres, esse nome não pegou. Todo mundo só se refere como Praia de Icaraí. O mesmo acontece com a Praia das Flexas. Esse aí ainda é pior. Pouca gente sabe que se chama João Caetano. A Rua Barros continua Rua Barros. A Avenida Estácio de Sá, que se tornou Avenida Roberto Silveira, é uma das poucas que o niteroiense assimilou. Mas, o pessoal mais velho, eventualmente continua chamando de Estácio.

O que me chamou a atenção foi a polêmica causada pela mudança. Os defensores da mudança se mobilizaram rapidamente e conseguiram a aprovação na Câmara. Dos 21 vereadores, apenas Casota, Fabiano Gonçalves e Douglas Gomes, votaram contra a mudança. Fabiano votou contra por defender dos lojistas, e faz seu papel como representante da classe.

Falei com Casota e ele se mostrou disposto e simpático para fazer muitas homenagens, incluindo um “Circuito das Artes Paulo Gustavo” com ações integradas, como cinema Icaraí com o nome do ator, escultura em bronze na Praia, em frente ao MAC, etc. Mas, a transformação do nome da Moreira ele não aceitou.

Existe um fato bem claro: se é para homenagear, tudo bem. Mas, se existiam outras opções deveriam ter discutido mais a questão, especialmente com os lojistas. A CDL ficou contra a mudança, embora seja a favor de outras homenagens ao Paulo Gustavo. O que eu percebo é que não é o nome do ator que está em questão. Todo mundo concorda (com raras exceções), que o Paulo merece todas as homenagens e carinho. Ele era um grande ser humano e merecia isso e muito mais. Mas, a questão é que politizaram o tema. Aí, fica esse impasse, que não é sobre o ator, mas, a disputa doentia por espaços de poder; além de conservadores homofóbicos que querem discutir o direito e a exercício da homenagem. Eles discordam de tudo, inclusive da orientação sexual do ator. Tenham a santa paciência!...

Agora é absorver o feito, e torcer que tudo fique onde deve estar. Na paz e na harmonia.