Repleto de Boas Intenções

O currículo de Marcos Prado está recheado de sucessos. Marcos foi produtor de filmes como “Ônibus 174” e “Tropa de Elite”. Além disso, dirigiu o muito aplaudido documentário “Estamira”, que recebeu mais de 30 prêmios em festivais de cinema pelo mundo.

E o seu último trabalho apenas corrobora a idéia de que Prado sabe fazer cinema visando o grande público – nacional e internacional.

Desta vez, após produzir diversos filmes dirigidos pelo sócio e amigo José Padilha, chega a vez dos papéis se inverterem. Padilha assina a produção desse projeto, que tem boas chances de sucesso nas bilheterias.

Depois de relatar fielmente a vida de uma senhora tachada como louca pela família e médicos, que encontra no lixão uma possibilidade de sobrevivência, em "Estamira", Marcos Prado toma rumos bem diferentes. O diretor embarca desta vez no mundo das raves, das drogas sintéticas e do tráfico de entorpecentes. Porém, o faz com a mesma destreza em que captou as imagens da catadora de lixo no Jardim Gramacho, na Baixada Fluminense.

A idéia de abordar este tema surgiu da preocupação do diretor com seu próprio filho, que, no início das pesquisas, durante a pré-produção, ainda era um adolescente. Marcos Prado queria mostrar a seu filho o como aumentava o número de casos de jovens de classe média presos por se envolverem no tráfico de drogas sintéticas.

E para falar com propriedade sobre o tema, sem se tornar repetitivo ou superficial, o diretor se dedicou a intensa pesquisa sobre as raves, realizou entrevistas com sociólogos e conversou também com usuários e traficantes de drogas. Prado chegou a freqüentar a festa Rave mais famosa do Brasil, a "Universo Paralello". Esta rave é composta de diversas pistas e ambientes com apresentações de música eletrônica e bandas. Em geral, são sete dias de badalação à beira mar, na cidade de Ituberá, mais especificamente na Praia de Pratigi, ao sul de Salvador, na Bahia.

Foi no Universo Paralelo que Marcos Prado conseguiu se "libertar" de muitos dos seus preconceitos sobre este tipo de festa, pois, percebeu que nem todas as pessoas vão para lá seguem com o mesmo intuito. É local também freqüentado por famílias e pessoas em busca de meditação e outras atividades lúdicas.

“Paraísos Artificiais” narra uma história de amor vivida entre um freqüentador de raves e uma famosa DJ. Para treinar o elenco, Marcos Prado convidou a mesma preparadora que atuou em filmes como "Cidade de Deus" e "Tropa de Elite": Fátima Toledo. Fátima, que também é atriz e diretora, desenvolveu seu próprio “método” de interpretação, baseado na bioenergética, na psicanálise, no autoconhecimento e na busca sensorial de emoções para interpretar personagens.

E para abordar esse universo, Padilha ainda investiu em muitas cenas de sexo, nudez e mostra, sem disfarces, o consumo das drogas sintéticas pela juventude freqüentadora destas raves.

Vale à pena ir ao cinema e conferir o trabalho orçado em mais de R$10 milhões. Trata-se, sem sombra de dúvida, de um filme cheio de energia, bela fotografia, trilha sonora contagiante e bons atores. Uma película construída para dar certo, por uma dupla afiada, que encarou longa pesquisa antes de iniciar as filmagens. Entretanto, cabe apenas uma ressalva: apesar do tema relevante e carente de debate na nossa sociedade, o filme passa longe de sugerir reflexões a respeito do comportamento da juventude contemporânea.

O mais triste é que, por melhor que tenham sido as intenções do filme, o fato de ele não conseguir suscitar nem um mísero minuto de meditação sobre o tema, o esvazia de sentido, de significado. Talvez, tenha faltado explorar o lado mais “infernal” das drogas, como em “Bicho de Sete Cabeças” ou em “Réquiem Para um Sonho” (“Réquiem for a Dream”, no original).  Porém, se a proposta foi explorar o universo das raves, com o brilhantismo na Sessão da Tarde, o propósito foi atingido.

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