Quem é Você?

Você é uma pessoa bem educada? Tolerante? Você é uma pessoa boa? Prestativa? Voluntariosa? Sempre foi assim? Ou você já fez ou faz maldades? Já colocou apelido pejorativo no seu coleguinha de sala? Já puxou o cabelo do “nerd “ da turma? Já colou na prova? Já teve preconceito com pobres e minorias? Você já perdeu a paciência com um idoso? Já teve vontade de dar uma palmada em uma criança? Já negou esmola a um pobre? Você já escondeu o pacote de biscoito dos amigos para não ter que oferecer? Você já achou um pertence perdido e não procurou pelo dono, apropriando-se do bem? Qual é o seu preço? Você participaria de um esquema fraudulento? Tiraria vantagem de um cargo público para desviar dinheiro da população? Afinal, quem é você? Como você age? Quais são os seus valores? Qual moral te guia? O que você só tem vontade de fazer e não faz? O que você só pensa e não diz? O que você esconde de todo mundo?

Devo citar aqui artistas contemporâneos, e registrar a pergunta de Dinho Ouro Preto na música do Capital Inicial: "O que você faz quando ninguém te vê fazendo? Ou o que você queria fazer, se ninguém pudesse te ver". Ou então, vale reforçar o pedido entoado por Pitty, em sua música, "Máscara": "Tira, a máscara que cobre o seu rosto. Se mostre e eu descubro se eu gosto do seu verdadeiro jeito de ser".

E então? Qual é o tamanho da máscara que encobre a nossa hipocrisia? Qual o grau da nossa bizarrice e o que precisamos esconder para continuar a "viver" nessa sociedade de aparência? Sim, nós fazemos tudo "direitinho". Todos os dias. 24 horas. Escondemos atrás da pele de carneiro, a fera indomada que existe dentro de nós. Tentamos adormecer esse leão raivoso que está vivo em nossas entranhas. Caso contrário, somos severamente punidos, enjaulados. Para compreender os padrões e nos adaptar a eles, nos prendem num colégio quando pequenos. Quando crescemos, se erramos, temos dois destinos: a prisão ou o manicômio. Afinal, quem não segue os ditames da sociedade, ou está louco ou bom sujeito não é! A não ser que tenhamos dinheiro o suficiente para cometer atrocidades e pagar pela nossa impunidade.

Porém, de fato, "uma hora" a gente cansa de ser bonzinho. A gente explode. O sangue ferve. É natural. É assim com o personagem Hulk, que pouco tem de ficção, se formos analisá-lo. E não é muito diferente conosco. Não ficamos verdes, mas, ficamos raivosos! Basta que alguém atinja nosso "calcanhar de Aquiles", nosso ponto critico, para que a fera que existe em nós surja forte e resplandecente.

E por que falar disso tudo? Por que tantos questionamentos? É simples! Além de ser cinéfila, eu também sou louca por teatro. Sim, no Brasil é complicado ir ao teatro. É caro demais! Além disso, em Niterói, temos apenas três teatros para uma população de mais de 487 mil habitantes. Um verdadeiro absurdo! Um despautério que torna a cultura ainda mais inacessível.

Porém, a paixão pelo teatro fala mais alto e, normalmente, atravesso a Ponte em busca dos palcos. E foi assim quando fui ao Teatro Maison de France, no Centro do Rio, passar assistir a então nova montagem de uma das minhas escritoras prediletas: Yasmina Reza! Em suas obras, esta escritora francesa está atenta à natureza humana. Principalmente quando esta se mostra de forma nua e crua. Eu assisti à peça com um elenco afiado, que arrancou suspiros da crítica mais rigorosa – e bem formada e informada – deste país: Bárbara Heliodora. O elenco era formado por Júlia Lemmertz, Paulo Betti, Deborah Evelyn e Orã Figueiredo, que estavam sob a direção de Emilio de Mello.

No cinema, também fui ao delírio! Imagine assistir às idéias de Yasmina sendo orquestradas pelo diretor franco-polonês Roman Polanski ("O Pianista" e "Chinatown"), quando este se esmera de forma inenarrável à extrair de um quarteto premiadíssimo o nada afetuoso cenário de "Deus da Carnifina". O filme é um caldeirão. É difícil saber quem será o primeiro a explodir, ou seja, de quem jorrará o primeiro jato de veneno. Tamanha tensão foi gravada praticamente em um único cenário, que incluía simplesmente quatro feras da atualidade: Jodie Foster ("Taxi Driver" e "O Silêncio dos Inocentes"), Kate Winslet ("O Leitor" e "Titanic"), Christoph Waltz ("Bastardos Inglórios" e "Água para Elefantes") e John C. Reilly ("Chicago" e "Precisamos Falar Sobre o Kevin").

E, a meu ver, não é o tipo de filme que se pode compreender pela sinopse. Muito menos, o tipo de obra que comporta um resumo. Para entender "Deus da Carnificina" é preciso entender você mesmo primeiro. Afinal, é muito fácil julgar o outro, apontar os defeitos do alheio e sair criticando. Porém, a raiva e a incompreensão da sociedade moram dentro de cada um de nós. Sendo assim, precisamos evoluir internamente para que nossa sociedade se torne menos hipócrita, mais verdadeira e menos corrupta. A transformação, meus amigos, é de dentro para fora.

Rua Cônsul Francisco Cruz, 3 - Centro - Niterói/RJ

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