Que Trânsito é Este?

Na atualidade, quando acordamos,s imediatamente ingressamos num mundo sonoro comum a todo cidadão que vive em cidade com mais de 300.000 habitantes. É o som do trânsito, o ronco dos motores, o nervosismo da buzinas que se repetem como se fosse possível fazer o trânsito se movimentar pelo nosso desejo, depositando na buzina a irritação como um instrumento de protesto.

Todos querem usufruir dos benefícios da tecnologia  e da mobilidade motorizada. Entretanto, o preço deste desejo está fazendo com que cidades, como a anterior e pacata Niterói, se transformem em arenas de guerra entre motoristas.

As razões do conflito, muitas vezes são encobertas pelos mais diversos motivos, incluindo a nossa negação da responsabilidade solidária que temos em relação ao problema. Para o usuário é simples e automático: a culpa está sempre no outro. No motorista ao lado que dirige mal, do motorista do coletivo que o intimida com o tamanho do seu veículo e principalmente pelas autoridades municipais que não “organizam o trânsito”, como cada um espera que seja.

Os caminhos e razões do imbróglio que se tornou o trânsito no Brasil se assemelham e tem a mesma origem: existe um descompasso entre a oferta de veículos e adensamento populacional, contra uma adequação urbana que comporte tal demanda. Não se faz uma obra viária com a mesma velocidade que se emplaca automóveis. Todos irão perguntar, porque não fazem as tais obras e usam tecnologia avançada para nortear e disciplinar o trânsito? É mais um desencontro. O governo central, acertadamente, estimula a produção e comercialização de automóveis, preocupados em manter os empregos, principalmente a oferta de novos postos de trabalho, o dinheiro circulante, as exportações e os impostos. Entretanto, ao estimular as vendas de longo prazo a juros baixos e as vezes zero de taxas, possibilita a compra de veículos por quem nunca teve um carro na vida. Poderemos argumentar: isso é bom! Elevou o padrão de vida da população menos favorecida. Isto é progresso e justiça social! Mas, esta introdução de novos consumidores tem um preço. Quem nunca teve um carro, emocionalmente considera a compra como um troféu e auto-afirmação pessoal: Pensa, “subi de vida”... Neste emocional o individuo usa o veículo compulsivamente e se “divorcia” definitivamente do transporte coletivo; e com um agravante: anda quase sempre sozinho. Aumenta a densidade automotiva e não socializa o transporte.

Niterói emplaca diariamente centenas de automóveis. No final de “um ano promocional” a quantidade quase duplica, enquanto as obras viárias, que são obras pesadas e alta complexidade andam numa velocidade muito aquém da entrada frenética de veículos na cidade.

A classe média encara o trânsito como se fosse uma grande batalha em defesa do seu direito individual prioritário de ir e vir, o que significa que cada indivíduo da Classe, no trânsito, tem prioridade um sobre o outro e vice-versa (numa estranha equação ainda não resolvida pela matemática). O médio-classista e todos têm prioridade sobre os pedestres, como se o carro fosse o “ser de maior importância”. Há uma perspectiva individualista onde cada um cuida de si e não há, nem de leve, a preocupação com o coletivo.

Vivemos numa cidade que enfrenta um grave problema de trânsito e mobilidade e precisamos, todos, enquanto moradores e participantes da vvida niteroiense, rediscutirmos nossos valores individuais com um foco do todo. As autoridades municipais estão tentando os ajustes, e que nem sempre agrada ou colide com interesses individuais. Fazer um omelete pressupõe quebrar os ovos e produzir um novo produto. Que está difícil e desconfortável todos nós sabemos, mas é preciso permitir que as mudanças sejam implementadas e ajustadas de acordo com o aparecimento de situações conflitantes. É preciso dar tempo para que os ajustes amadureçam e possam chegar a consenso da dinâmica e aferir resultados objetivos.

Por hora o problema continua em processo de evolução, e que seja positiva.

Todas as cidades que revisitamos, como Salvador, Maceió, até Florianópolis, têm problemas de trânsito. O Rio de Janeiro é intransitável e nem vamos discutir São Paulo, pois os números e regras extrapolam qualquer raciocínio. Engarrafamentos de 256 km, com ocorreu recentemente, é como ir de Niterói até Campos dos Goytacazes num único engarrafamento.

Não se trata de minimizar comparativamente os problemas de Niterói, apresentando situações piores que a nossa. A questão é se gerar nova consciência adequada aos novos tempos. Tivemos uma expansão imobiliária desmedida para a nossa evolução, enquanto cidade aprazível. Mas o conceito de “cidade boa de se viver” atraiu empresas, capital e interessados. Esta pressão é muito difícil de conter, tanto é que medidas extremas foram tomadas, até pelo Ministério Público.

Aí voltamos a questão similar à dos veículos: todo mundo quer viver na zona Sul, preferencialmente em Icaraí. Porque não procuram imóveis no Centro que está para ser revitalizado e dignificado? E os bairros de Pendotiba e Maria Paula? O Fonseca repaginado será um bairro maravilhoso. Entretanto, vamos mantendo a lei do mais fácil e de melhor marketing.  A questão é que todos querem a mesma coisa, inclusive os empresários, pois é muito mais fácil e rentável vender um imóvel em Icaraí, do que em Pendotiba. Precisamos repensar a cidade como um todo, redistribuí-la e aproveitá-la sadiamente. Necessitamos, e acreditamos que nos encaminhamos obrigatoriamente para projetos de transportes de massa. Precisamos valorizar as ciclovias e simplificar o transporte dos ônibus, como já está proposto e está em andamento.

 Mas algo tem que ficar claro: não há milagres ao enfrentarmos demandas de progresso. Cada um quer defender o seu, mas a cidade é de todos, e, por conseguinte, temos que reenvidicar, mas operar individualmente para que tudo dê certo. Não basta criticar e lamentar. Críticas são bem vindas acompanhadas de propostas inovadoras. Vamos trabalhar por nós mesmos, sem demonizar os técnicos que estão efetivamente trabalhando. O tamanho do problema diminui quando todos facilitam.

Rua Cônsul Francisco Cruz, 3 - Centro - Niterói/RJ

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