O Reboot de uma Distopia

Primeiramente, é preciso deixar claro que, por melhor que seja qualquer adaptação, nada superará a magnitude da obra literária "La Planète des Singes", de Pierre Boulle. Tamanha sua importância, a mesma já sofreu adaptações para as mais diversas mídias. E está nos cinemas mais uma tentativa – bastante válida – do cineasta Rupert Wyatt, de levar algumas idéias de Boulle para a telona.

Não, o filme não é ruim. Muito pelo contrário. Suspeitei, inicialmente, que o filme não fosse me convencer. Acreditava que iria me decepcionar – assim como ocorreu em 2001, quando fui ao cinema assistir a adaptação deste clássico, realizada por Tim Burton e estrelada por Mark Wahlberg. Porém, para a minha surpresa, "Planeta dos Macacos: A Origem" é um bom filme. Inclusive, não é exagero enxergá-lo como a salvação de uma franquia que errou muito mais do que acertou – principalmente, se levarmos em conta os quatro filmes originais, os desenhos, os gibis e até a confusa refilmagem supracitada de Burton.

A grande verdade é que os estúdios de Hollywood estão constantemente anunciando planos mirabolantes de refilmagem, na tentativa de reinventar e reciclar franquias que foram sucesso no passado. São os chamados reboots! Creio que esta tendência seja uma possível busca de solução para a crise criativa – e também econômica – da indústria cinematográfica americana. Neste momento, por exemplo, estão "no forno" os reboots de “Homem-Aranha”, “Caça-fantasmas”, “Robocop”, entre outros.

Porém, ao invés de reclamar de mais uma tentativa de ressuscitar o passado, espantar fantasmas e exorcizar péssimas produções, prefiro continuar abordando esta boa exceção que é "Planeta dos Macacos: A Origem". Diferente do que eu imaginava quem prende a atenção do espectador não é James Franco – que, apesar de lindo, está bastante inexpressivo, com um desempenho bem diferente da apresentada na sua obra prima: "127 horas".

O grande ator do filme é Andy Serkis. Ei... Mas espere: "quem é Andy Serkis"? Muitos se perguntarão. E você o conhece, com certeza, mas, de repente, não lembra o nome. Bem, ele esteve em grandes produções contemporâneas, em papéis um tanto quando "intrigantes"!  Ele é o "gênio” do momento, que interpreta alguns dos grandes personagens do cinema criados por computador. E, aviso: sendo fã ou não da série, gostando ou não do filme, uma coisa que por si só já vale o ingresso: a belíssima atuação digital de Andy Serkis. O ator deu vida ao Golum/Smigol na saga "O Senhor dos Anéis" e também ao "King Kong" na sua mais recente filmagem. No filme de Wyatt, ele é Caesar, o primeiro símio inteligente que irá liderar os macacos na dominação mundial. O ator teve seus movimentos capturados com tecnologia idêntica à empregada em "Avatar". A exatidão dos movimentos é tamanha que, em alguns momentos, é possível duvidar que os eletrodos tenham sido plugados num ator, mas sim num chimpanzé de verdade.

Bem, e o filme? Como disse, só pela atuação de Serkis, a ida ao cinema já vale à pena. Porém, a película não é decepcionante. Em alguns momentos, tenta ser um filme de ação, emociona e procura contar uma história condizente com a franquia. O problema é que não empolga. E, no final do filme, o gostinho é de "vai acabar assim?" – o que pode decepcionar alguns. Obviamente, a tentativa de disseminar um pedido de "bis", de "quero mais", talvez tenha passado dos limites, construindo um filme sem final. Mas, como o propósito era mostrar "A Origem", como o próprio título suscita, o diretor fez sua lição de casa. Apenas isso.

A forma mais inteligente de assistir "Planeta dos Macacos – A Origem" é não procurar no filme a ação e nem o drama. Vale à pena ir à busca de um princípio que faça sentido para a saga, pois, é exatamente – e somente – para isso que o filme parece existir. Meu conselho é não se prender à possível incoerência existente em um bando de macacos falantes, que estão lutando contra uma sociedade que os maltrata. O foco mais coerente está no batido paradoxo da humanidade se destruindo graças aos seus erros e sua vontade de evoluir a qualquer custo. É no conflito ético entre a ciência e a natureza – onde, quase sempre, a segunda mostra quem é soberana – que está o ponto chave da película.

Amigos mantenham os olhos atentos para esta distopia! Lembre-se que, enquanto a utopia representa uma visão idealizada da realidade, a distopia representa sociedades ruins, controladas, dominadas... Sociedades que acabam de passar pela destruição quase total, desencadeada pela tentativa de um indivíduo ou de um grupo de tomar as rédeas, fazer justiça com as próprias mãos, mudando o mundo para que “descontroles” não voltem a acontecer. Feitas tais considerações, só cabe desejar um “bom filme”!

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