O Que Não Queremos Mais

Quando andamos pela rua, é fácil perceber que cada pessoa tem algo a dizer, um desejo de contestação, explícito em insatisfações diversas. O povo de Niterói, que tem uma tradição de cidade pacata, perdeu a condição de capital do Estado, entrou em declínio, sofreu esvaziamento cultural e econômico, fato que confundiu e danificou a auto-estima de todos. Depois, veio a reação, as melhorias e acima de tudo uma vivência confortável que contentava e enchia de orgulho até os mais descrentes.

Os atores deste processo de melhoria e recuperação da auto estima são os mesmos que hoje despertam a revolta da população por terem deixado escapar o melhor que esta cidade tinha: a perspectiva e a convicção da melhor qualidade de vida.

E nos perguntamos atônitos e com sentimentos de traídos: Como podem ser os mesmos que de forma pragmática elevou o padrão de vida da população como um todo e chegamos a ter uma saúde pública que era motivo de orgulho para o niteroiense. Quem não se lembra do tempo em que qualquer cidadão podia pegar uma requisição médica de exames, entrar em laboratórios públicos e o resultado era rápido. E isso sem nenhuma burocracia ou exigências desmedidas. Era a sensação de estar no primeiro mundo. Hoje conseguir uma consulta com um especialista leva meses.Quem não se lembra da criação da CLIN, que foi exemplo de atuação nos serviços de limpeza pública? Quem não se lembra da eficiência dos serviços da Emusa, que providenciava obras e tapava buracos quase que “instantaneamente”. Era só acusar a existência de um buraco e logo apareciam operários, máquinas e asfalto pronto para ser usado. Praias e destinos limpos. Era uma Cidade de verdade.

Vieram os sonhos de grandeza, as obras audaciosas com desenho de Niemayer e dias gloriosos para a cultura e arte, capitaneada pela Niterói Discos, Livros, realizações num dos teatros mais bonitos do mundo: o pequeno e enorme Teatro Municipal, refeito magnificamente pelas mãos dos nossos artistas nativos.  O primeiro mundo era aqui.

Hoje, e tão perto na esteira do tempo, falamos desta cidade com saudosismo ou num distanciamento que parece que mudamos de lugar. Continuam repetindo a cantilena da boa qualidade. Mas, onde está?

A cidade era tão boa que atraiu quem não devia. Atraiu a especulação imobiliária e as empresas que chegaram liquidaram com a maioria das construtoras locais. Chegaram como invasores, colonizadores cruéis, sem vínculos e compromissos. Desordenadamente e com a conivência dos administradores deformaram bairros inteiros, adensaram populações desavisadas, que ávidas de morar nos lugares do sonho de consumo maior, participaram e fomentaram a destruição do próprio habitat.

Gente demais, desejos de opulência sem planejamento e inevitavelmente entramos nos milhares de automóveis e rumamos para o caos. Só nos resta reagir. Elencar aquilo que não queremos mais e escrever num grande painel para que não esqueçamos mais.

Não queremos mais viver engarrafados como o gado do matadouro, sem vias de retorno e a certeza da morte. De uma forma ou de outra: ou física ou emocional, na fila da morte sem rumo.

Não queremos mais que nos convençam daquilo que não queremos acreditar, que o sol vai permanecer enquanto crescem os blocos de concreto e que só fortalecem os bolsos e conta dos nossos algozes.

Não queremos mais a falta de previsão e cuidados que resultam em enchentes, deslizamentos e mortes.

Não queremos mais ver o nosso povo morrer nos corredores dos hospitais, por falta de atendimento digno ou simplesmente o remédio mínimo necessário.

Não queremos mais a falta de transparência e termos apenas respostas arrogantes de que dizem que não vão nos responder.

Não queremos mais o descuidado e a certeza que a dengue vai nos pegar outra vez, e as nossas chances de recuperação é cada vez menor.

Não queremos mais a desordem urbana e que dita às regras é o desconhecido flanelinha, que com a singeleza da alcunha, pode se agigantar em grupos, facas e armas de fogo. E quem vai nos valer?

Não queremos mais a cidade loteada por estacionamentos controlados por sindicatos desconhecidos ou por um pequeno grupo de empresários muito conhecidos.

Não queremos mais que as decisões sobre nossas vidas sejam tomadas por alguns, em portas fechadas, sem o respeito de nenhum. Determinam e usam os nossos impostos, sem nos dar qualquer participação ou a mínima satisfação.

Queremos de volta os destinos da cidade, em mãos que possamos confiar e dar as costas, sem que um punhal adverso não nos atravesse e nos extinga.

Queremos de volta a nossa cidade sitiada moralmente.

Rua Cônsul Francisco Cruz, 3 - Centro - Niterói/RJ

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