O Dia em que Fugi do Cinema...

Há algumas semanas, teci comentários sobre o último filme dirigido por Roman Polanski, “Deus da Carnificina”. A película conta com um elenco primoroso – Kate Winslet, Jodie Foster, Christoph Waltz e John C. Reilly – e preserva a genialidade do texto original. Genialidade esta que pertence a brilhante autora contemporânea Yasmina Reza. Eu, particularmente, sou uma fã incorrigível desta premiada escritora francesa que tem, além deste trabalho, outros textos fantásticos, com dezenas de montagens mundo afora.

E Yasmina foi a grande culpada por eu, neste último final de semana, ter “fugido do cinema”. Sim... Dado que os valores dos ingressos atualmente estão altíssimos – tanto o do teatro, como o do cinema – eu precisei escolher: ou eu assistia a uns três filmes ou eu ia ao teatro. Bem, desta vez, eu decidi arriscar uma programação diferente e o resultado foi, simplesmente, maravilhoso!

Sábado à noite, estava eu na Rua Conde Bernadotte, degustando um delicioso café expresso antes de assistir à nova montagem da obra que foi, digamos, o “pontapé inicial” da carreira de Yasmina. Estou chique, não é mesmo? E se eu estava feliz antes de assistir a “Arte”, fiquei muito mais contente depois. Eu tinha certeza que seria bom. Mas foi ótimo! A Sala Marília Pêra, do Teatro Leblon, estava lotada. E pelo volume das gargalhadas, garanto que não fui a única a gostar do espetáculo.

Não! As pessoas não riam por se tratar de mais um show no estilo “stand up comedy”! E, não, eu não estou dizendo que não gosto deste tipo de humor. Eu adoro stand up! Inclusive, atualmente, no país, temos uma safra maravilhosa de artistas que se dedicam a esse tipo de apresentação. Admiro demais o trabalho desta geração e destaco o talento de Danilo Gentili, Marcelo Adnet, Carol Zoccoli, Mhel Marrer, Rafinha Bastos, Léo Lins, Bruno Motta, Murilo Couto, etc. São verdadeiras feras do humor!

Entretanto, o espetáculo que presenciei no sábado tinha um tom diferente. Ninguém precisou subir no palco, fazer caras e bocas e abordar temas da moda. Ninguém precisou encarnar em alguém da platéia e fazer piadas. A história era simples. Imagine três amigos de longa data. Um deles comprou um quadro um tanto quanto exótico por um preço exorbitante. O amigo dele fica revoltado com a aquisição e não consegue conter sua irritação. E o terceiro amigo acaba ficando no meio desta “briga” travada no palco. Bem, alguns poderão pensar: “que tema bobo”, “claro que deve ser bomba”, etc. Ledo engano. Creio que seja um dos melhores espetáculos que já assisti. Os diálogos são inteligentes, perspicazes. Garantem leveza e dinamismo. A caneta afiada de Yasmina mostra o tecido social se esgarçando, por um motivo banal... Ela delimita os contornos da amizade, os limites da tolerância e o peso da incompreensão.

Os protagonistas brilham em harmonia. Não posso dizer que existe um destaque no elenco. Não há briga de egos entre Claudio Gabriel, Marcelo Flores e Vladimir Brichta. Todos estão perfeitos e realizam um trabalho amistoso, o que contribui – e muito – para o resultado final. A direção de Emílio de Mello é precisa. Emílio, que já havia orquestrado outras duas peças da autora – “Um homem inesperado” e “Deus da carnificina” – parece entender o pensamento de Yasmina melhor do que ninguém. Infelizmente, não assisti à primeira montagem no Brasil, em 1998, que contou com a direção de Mauro Rasi e com a atuação de Pedro Paulo Rangel, Paulo Goulart e Paulo Gorgulho. Porém, afirmo que o trabalho em cartaz neste momento é divino!

Um jogo bem estruturado entre os atores se dá em um cenário fantástico e “clean”, criado por Aurora Campos. A iluminação, assinada por Tomás Ribas, dá leveza ao trânsito entre o concreto e o imaginário, deixando o espetáculo ainda mais fluído e engraçado. A impressão que tive foi que todos os ingredientes estavam na quantidade certa e foram utilizados de forma grandiosa. O resultado não poderia ter sido melhor. Saí deslumbrada do teatro. Em êxtase! E olha que é muito difícil algo me deixar neste estado!

Enfim, meu final de semana foi delicioso. Entretanto, sou obrigada a dizer que, como minha cinefilia é compulsiva, no próximo sábado, provavelmente, não conseguirei me conter e irei correndo me esbaldar com a sétima arte. Até lá!

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