O Brilho de Sean Penn

Tenho grande apreço por filmes que giram em torno de um personagem principal emblemático. Eu poderia me referir ao Homem Aranha ou ao Batman – que aliais, faz uma das estréias mais esperadas do ano, nesta semana, nos cinemas nacionais, com "Batman: O Cavaleiro das Trevas Ressurge" findando a trilogia. Mas não. Não assisti ao novo filme do Homem Morcego ainda e não posso dizer nada a respeito. E, a propósito, após uma enxurrada de comentários na mídia, também faço questão de não redigir um texto sobre o americano que invadiu o cinema com as piores intenções possíveis. Ele não merece nada mais do que o desprezo de todos.

Porém, eu estou falando de um protagonista diferente. Um que não precisa ser forte fisicamente, nem ter super poderes. Um protagonista que seja, por outro lado, possível, provável... Próximo do real! É a verossimilhança que me faz amar um personagem. Afinal, as pessoas reais são muito mais interessantes que as fictícias. Pessoas de carne e osso contabilizam muito mais fraquezas do que vantagens, muito mais derrotas do que conquistas, muito mais lágrimas do que sorrisos. E, por conta disso, elas têm belas e tocantes histórias de superação para contar. O personagem ideal para um filme questionador é aquele que se transforma. Que se perde e se encontra. Que consegue buscar, dentro de si e no meio onde vive, formas de transcender, de superar seus problemas. Ele não voa, não veste um uniforme colorido. Entretanto, trava diariamente uma batalha contra seus problemas. Na maioria das vezes, sai magoado, ferido, arrasado nas lutas da vida. Entretanto, encara cada derrota como um aprendizado e volta mais forte para vencer a guerra.

E, se alguém pedir um exemplo de ator que consegue dar vida a personagens deste porte, creio que um dos primeiros nomes que invadem meu pensamento seja Sean Penn. Ele tem no currículo fortes protagonistas. Em "Uma Lição de Amor" ("I Am Sam", no original), Sean deu vida a um homem com deficiência mental que, mesmo assim, cria sua filha pequena. Entretanto, conforme a garotinha cresce, ela é que passa a "cuidar" do pai. O filme, de tão perfeito, arranca lágrimas. Foi ele que, com a fantástica direção de Gus Van Sant, deu vida ao político e ativista gay norte-americano Harvey Milk nas telas do cinema. E Sean Penn também comoveu o mundo ao lado de Susan Sarandon, em "Os Últimos Passos de Um Homem" ("Dead Man Walking", no original), ao contar a rotina de um presidiário que espera a execução.

Enfim, eu poderia escrever a coluna inteira apenas tecendo comentários inflamados sobre a filmografia de Sean Penn. Porém, ao invés disso, prefiro comentar sobre o novo trabalho dele, que chega aos cinemas. "Este é o Meu Lugar" ("This Must Be the Place", no original) transita entre o cinza do drama existencial e o colorido da comédia. Sean interpreta um ex-astro do rock, que amarga o esquecimento, vivendo no ostracismo. No início da projeção, eu juro que fiquei assustada. Sean passou por uma enorme transformação – talvez, a maior de sua carreira – para viver o roqueiro Cheyenne. Sua voz, seu caminhar, seu corpo, enfim, tudo está diferente. E é prestando atenção em cada frase, em cada movimento, em cada detalhe, que conseguimos penetrar no mundo do personagem e, finalmente, compreendê-lo. Percebemos que "cair no esquecimento" foi opção do próprio Cheyenne. E que, mesmo após duas décadas longe do palco, ele ainda não tinha feito as pazes consigo mesmo. O filme, mostra sua jornada a fim de concluir o plano inacabado de seu pai, recém-falecido. Porém, o que percebemos é que a busca é muito mais profunda do que parece. Trata-se de uma viagem libertadora – realizada ao som da banda de David Byrne – na qual encontrará novamente as forças para recomeçar a viver de verdade.

Grande destaque para o desempenho da atriz Frances McDormand ("Fargo" e "Queime Depois de Ler") que está perfeita no papel de esposa. O filme, dirigido pelo italiano Paolo Sorrentino ("Il Divo" e "As Conseqüências do Amor"), tem contornos deliciosos de um "road movie", mesmo tendo como essência uma história rebuscada – e, até, bizarra, em alguns momentos – com referências diversas, mas sempre mantendo um sabor delicado e tocante.

Creio que seja uma ótima dica para o final de semana. Principalmente para aqueles que, como eu, querem muito assistir ao último filme da trilogia de Christopher Nolan, mas que detestam filas e tumultos. Afinal, o Homem Morcego ficará muito tempo em cartaz... Não precisamos ter pressa... Bom filme!

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