Niterói do Trânsito Caótico. O que Fazer?

Poderíamos encontrar muitas razões, inclusive de bases históricas, para explicar o caos existente no trânsito das grandes cidades. Entretanto, podemos dizer que o caos não é mais problema das grandes metrópoles. Cidades de 200 a 300 mil habitantes enfrentam os mesmos problemas, e a grosso modo as razões são sempre as mesmas, o que não quer dizer que a mesma solução serviria para todos. Na verdade, o conceito básico pode se adaptar, mas, as soluções de cada cidade se devem às suas próprias características. Podemos fazer paralelos entre cidades de culturas muito diferentes, mas intimamente a origem dos problemas de trânsito se equivalem. O fato da indústria automobilística ter crescido muito, justifica o acesso de mais pessoas a veículos motorizados. A comodidade e a globalização também são fatores que aproximam os mais diferentes povos no que tange ao uso dos veículos. Cidades mais avançadas e consequentemente de povos mais desenvolvidos já passaram por problemas desta ordem, mas, resolveram seus problemas de transito de duas formas básicas: mudança do conceito de uso do transporte, dando inteira prioridade ao transporte coletivo, de priorizar as individualidades. O avanço de transporte de massa, como trens, metrô, barcas e ônibus (articulados e veículos leves) estão no topo das soluções urbanas e contribuem seqüencialmente para a segunda forma, que é a mudança de cultura e comportamento. Neste item contempla-se o uso de veículos leves, como motos e bicicletas. As bicicletas são usadas cotidianamente em cidades de primeiro mundo como uma preferência maior. Para tanto, é necessário normatizar o uso e oferecer condições ideais, como ciclovias seqüenciadas e estacionamentos e guarda das “bikes”.



Como dissemos, cada cidade responde por seus próprios problemas, centrado nas suas características. O que acontece com Niterói, uma cidade com características muitos especiais, mas, com um histórico que não contemplou a perspectiva do desenvolvimento, e não se adaptou paulatinamente às mudanças tecnológicas, econômicas e sociais. Daí ter um transito caótico, é no mínimo o esperado. Niterói foi capital de um Estado, que era infinitamente maior geograficamente do que o vizinho Guanabara. Era uma cidade infinitamente menor que o a capital do país, e neste diapasão também se colocava na condição de inferioridade urbana e cultural. Veio a fusão, perdeu o status de capital, e foi lentamente relegada a um segundo plano, mais acentuadamente. Para se ter ideia, nos últimos anos, não se tem noticia de grandes obras urbanas, salvo algumas médias incursões, como o túnel Charistas-Cafubá, o aterro da Praia Grande, a Avenida Central em Itaipu. Existem muitas obras de adaptação de caixas de rua, aumento de alguns acessos, mas, nada que se equivalha ao crescimento geométrico e muito rápido na quantidade de carros e ônibus na cidade.

Porque se diz que Niterói extrapolou a sua capacidade de mobilidade urbana? Simples:

1º - a questão econômica. Niterói tem um nível de renda muito bom, o que condiciona a aquisição de mais veículos.

2º - A sua cultura comodista e individualista. É comum encontrarmos a maioria dos carros transportando apenas uma pessoa. Ainda há resistência ao uso de ônibus por grande parte da população, que prioriza os carros.

3º - A insuficiência de Ruas e Avenidas, proporcional ao número de veículos em circulação.

4º - A falta de uma política administrativa e resolutiva para transportes e suas implicações, inclusive na articulação entre os modais.

5º - A ausência de um órgão especializado em transportes, para ordenar e pensar soluções. O que existe a Nittrans é uma empresa mais preocupada em rebocar e reprimir os motoristas, arrecadar com multas; administrando como um capataz. Não é um órgão de inteligência do trânsito.

As Soluções:

A primeira e fundamental solução é relativa ao uso do transporte coletivo. É extremamente necessário acabar com o compadrio entre as empresas de ônibus e a prefeitura. Enquanto existir este “vinculo”, será impossível tirar do papel as soluções reais. É preciso melhorar a qualidade deste item, colocando um número muito maior de veículos rodando e distribuídos tecnicamente para atender a população igualmente, e não aos anseios lucrativos das empresas. Niterói tem o Kilômetro mais caro do Brasil para o usuário e o mais lucrativo para os empresários. São distancias curtas, de mínimo desgaste, a um preço avantajado. É mais que urgente repensar estas concessões, abrir o mercado para outros interessados. Hoje temos um sistema cartelizado, onde uma empresa é sócia da outra, a concorrência é mínima ou inexistente, o que dificulta o desenvolvimento pela competição. São poucos detentores do sistema de transporte urbano em Niterói, incluindo as ramificações com o cartel do Rio de Janeiro. Dá para contar nos dedos quantas pessoas mandam no sistema.

A segunda medida (que é antipática e precisará ser posta em prática paulatinamente, para resolver a questão por zoneamento e por uso de horários) é acabar com todo estacionamento nas ruas. Nada de vender vagas e criar renda para muito poucos. O início da extinção das vagas começaria pelo Centro da cidade. Depois avançaria por Icaraí e Santa Rosa, para depois chegar a São Francisco e Charitas. A região Norte e Oceânica ficaria por último. O que se pergunta é: onde serão estacionados os veículos de quem não tem garagem? Será estimulada a criação de estacionamentos particulares para abrigar estes veículos sem garagem. Aquelas pessoas que possuem 2 carros apenas por luxo, e não dispõe de duas garagens, deveriam começar a pensar em ter apenas um carro. Muita gente mantém o segundo carro parado em via pública durante toda semana, para uma eventual saída nos fins de semana. É uma cultura que precisa mudar, pensando na qualidade de vida do coletivo.

A terceira medida é proibir a circulação de carros no Centro da cidade. Seriam criados estacionamentos no entorno, e a criação de uma linha de micro ônibus circulares que fariam o perímetro entre os estacionamentos. O pagamento do estacionamento daria direito a usar o micro ônibus.

A quarta medida (também antipática) seria o uso de veículos de placas impares e pares em dias alternados. Haveria uma diminuição de aproximadamente 50% dos carros em circulação. A quinta medida seria criar portais em toda cidade para cobrar pedágio do uso do solo de todos os carros de outros municípios. Atualmente, com a crise financeira, a adesão de pessoas desempregadas aos aplicativos de transporte está estourando. Boa parte desses veículos é de municípios vizinhos que atuam em Niterói, por ser mais segura e mais rentável pelas curtas distâncias.

A sexta medida e mais onerosa e demorada seriam as obras viárias necessárias. Existem muitos projetos qualificados que foram pagos e nunca utilizados, como o de Jaime Lerner e Pedro Lentino. Ambos têm soluções viáveis e exeqüíveis para a cidade. Entretanto, nunca saíram do papel.

A criação de uma via expressa vindo de Pendotiba, passando paralela a Avenida Roberto Silveira, cortando o Bairro de Fátima até a Ponte. De lá, seriam abertos outros braços para alcançar a Zona Norte.

Muito pode ser feito. Bastaria vontade política e menos interesses individuais.

Rua Cônsul Francisco Cruz, 3 - Centro - Niterói/RJ

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