Niterói: A Cidade do Abandono Urbano

Existem várias maneiras de se classificar uma cidade. Uma delas é pela qualidade do seu mobiliário urbano, que são as suas edificações mais simples, como abrigos de pontos de ônibus, estado de conservação e visibilidade de suas placas de sinalização e até a sua sinalização horizontal, que é a que norteia e dialoga silenciosamente com os motoristas e pedestres,regulando o comportamento automático dos habitantes.

Este item, aparentemente de menor importância, é o fator que determina se um município esta sendo cuidado, administrado e qual o grau de comprometimento que têm as autoridades responsáveis e que tipo de povo os elegem.

É como adentrar numa casa e perceber de início que o portão de entrada está enferrujado, adernado, com dobradiças e fechaduras quebradas. Naturalmente, as paredes estarão em mau estado, pintura decadente e por seguimento, tudo que estiver à volta estará comprometido ou denota que irá perecer em curto espaço de tempo. Quem atualmente anda por Niterói, ainda que nas regiões privilegiadas da zona Sul, não a reconhece mais ou assusta-se se compadecendo da sua decadência, da falta de zelo e do antagonismo da imagem de quem se auto intitulou, “cidade sorriso”. Parecerá ironia, afinal, ri de que?

Onde está àquela elegante e briosa cidade que mais parecia uma das mais rigorosas e bem cuidadas cidades da Alemanha?

A tão decantada qualidade de vida e o orgulho adquirido após tantos anos de desleixo e má fama, agora mais parece uma miragem. Um sonho que durou pouco e acordou-se para uma realidade brutal, cheia de más intenções e um futuro que capitula pela prática desenfreada de ardilosas manobras, que se apresentam como “desenvolvimento e progresso”.  Na verdade só prosperam empresários forasteiros e especuladores que vendem sonhos de grandeza e conforto, enquanto toda infra estrutura está comprometida e carente de esforços imediatos para que a falência e desmando total não se implante definitivamente.

Demos uma corrida por diversos bairros da cidade e encontramos dificuldades e má conservação em todos. Não há um só lugar onde não exista a carência de algum reparo ou mesmo providências imediatas para que se evitem males imprevisíveis, embora anunciados. A promissora Região Oceânica parece uma espécie de distrito distante e abandonado numa destas cidades pobres e sem administradores que podemos encontrar na Amazônia ou nos estados mais pobres do Nordeste. Se paga muito imposto para retorno mínimo, e até em alguns lugares a alegação é que falta regularidade em serviços essenciais como coleta de lixo. Destas localidades não podemos falar em segurança, pois seria um “luxo inimaginável”, cobertos de retóricas defensivas e evasivas, onde a transferência de responsabilidades entre os poderes torna o cidadão um “ouvinte atordoado” e sem a quem recorrer.

No Largo da Batalha encontramos as obras da Unidade de Saúde em ritmo de abandono. Até quando a população mais pobre e sem voz vai ter que se sujeitar a ser atendida em caixas de ferro, como em tempos de guerra ou calamidades. Enfim, a guerra que travamos é silenciosa e ainda não declaramos a calamidade, embora o tratamento seja igual.

Voltamos ao ponto mais cobiçado e onde mais se especula para ver se ainda assim, com tantos interesses imobiliários, ao menos, algum lugar se salvaria. Escolhemos como coração da nossa analise o bucólico e desejado Campo de São Bento, em Icaraí. Entretanto, para constatação irrecusável, vamos apresentar as fotos que dizem mais que muitas palavras. Queremos apenas elencar um item de referência que está estampado na nossa capa: as placas de sinalização utilizadas para demarcar áreas de faturamento com estacionamento urbano. Uma “mina de ouro” que pouco se sabe ou se tem controle sobre estas arrecadações, que começam com as falhas ou acordo entre guardadores que sonegam e desviam a arrecadação, dispensando a extração do talonário, até a incógnita de para onde vão estes recursos. Ainda assim, basta ver o estado das placas. Descascadas, mascaradas por ferrugem, manchas do tempo e sujeira. Mal se podem ler as informações e representa a inércia e o descaso a que estamos sendo vítimas.

Na primeira administração do prefeito Jorge Roberto Silveira, ele declarou que seria um gerente, um síndico da cidade. Tomaria conta dos mínimos detalhes, além de cuidar de ruas, praças, do lixo urbano e da segurança da nossa gente. Bons tempos aqueles... Ele realmente cumpriu o que disse. Hoje seria bom que ele relesse suas próprias declarações e se inspirasse em si mesmo. A cidade agradeceria.

Rua Cônsul Francisco Cruz, 3 - Centro - Niterói/RJ

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