Este é o País que Queremos?

Estava no Centro de Bangu e me deparei com um fato que me mobilizou inteiramente. Fui abordado por um homem, de uns 35 anos aparentes, negro, vestindo calça azul e camiseta branca. Ambas, bastante “surradas”. Trazia um papel na mão e um desolador brilho triste nos olhos. Ele me disse: “moço, não precisa ter medo. Estou apenas pedindo. Não tenho outro jeito!” Era um pedido de ajuda financeira imediata, alguns trocados, e aí, todos dirão: “isso ocorre a todo momento neste país...!” A diferença era que este homem havia sido solto, após cumprir pena de três anos e alguns meses, no Complexo Penitenciário de Bangu.

Interessei-me pelo fato e fiz algumas perguntas. Resumindo, é o seguinte: saiu, com a roupa do corpo e nenhum dinheiro no bolso. Nem para um café ou uma passagem de ônibus. Era do Piauí, e não tinha família  no Rio de Janeiro. Cumpriu pena por furto e porte de arma branca. Não era assaltante, apenas furtava comida em supermercados. No dia da prisão foi encontrado com uma garrafa de whisky nacional, além de uma goiabada e uns biscoitos. Furtar o Whisky  fez toda a diferença. Afinal, negro e pobre, infringiu a lei maior: desejar consumir algo reservado aos que podem comprar, independente da sua absoluta falta de instrução e frequente perturbação visual dos ”produtos de ricos”, expostos em cartazes e gôndolas de todos os bares e supermercados do país. Saiu da prisão sem que um assistente social lhe desse uma orientação ou suporte para recomeçar no mundo de fora ou “inferno maior”, pois o “inferno trancado” ele já tinha se acostumado, e apesar da má qualidade e frequentemente azeda, existia a “quentinha” diária, conhecida como “brilhosa”. Um homem como este que nasceu miserável e nordestino, sem instrução ou qualquer assistência do Estado, vem para o “sul maravilha” e descobre que o inferno só muda de paisagem. Às vezes, aqui ainda é pior e mais desumano. A sociedade quer vê-lo distante e presencialmente trancado. Afinal, este animal furioso ameaça a tudo que “parece estável”. O Estado é omisso em tudo. Na sua formação, alimentação, (como dizia Brizola: não comeu proteína, queima o Chip. Aí, fica sem jeito! E querem reclamar...) na saúde e na educação. Violentado em tudo. Quando sai de uma cadeia, pior do que quando entrou, não existe uma assistência para fazer o ritual de passagem e adaptação. Um albergue, um centro social para direcioná-lo a um emprego, uma ocupação remunerada... Um olhar de complacência, um derredor de humanidade pálida que seja! O que quer a sociedade? O que se pode esperar? Todos irão gritar de pavor, pois o Estado (que somos todos nós) não nos vai oferecer proteção e garantias constitucionais. Nada! Absolutamente nada! O “bandido” vai delinquir novamente! Obviamente! E como não fazê-lo?  E somos todos vítimas e culpados neste jogo desigual e a nossa impotência e descompromisso, varremos a sujeira para debaixo do tapete, enchemos as cadeias de lixo humano, que são massas de manobras e meios de ganhos e rendas ilegais para tanta gente... Estamos podres e não percebemos. Está tudo dominado. O submundo é quem manda,  inclusive ocupando os mais importantes cargos e status da nossa combalida organização social. Satanás é apenas o gestor e tem pequenos e sub demônios infiltrados em tudo que vemos e fazemos. Pois é... Na hora de votar, lembrem bem que são os nossos algozes e para onde sistematicamente nos levam. Lembrem dos Sarneys, dos Toffolis, Malufes e outros descobridores de nosso país. País de todos na mão de uns e outros... Que merda!

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