Eleições: A Hora do Fogo Amigo

Quando se aproxima o período de eleições, sejam municipais ou Estaduais e Federais, fatos imprevisíveis sempre acontecem. O mais interessante é que no período pré-eleitoral, que é quando os partidos começam a se articular, e começam a buscar nomes que possam realmente contribuir para o sucesso do grupo, acontecem as primeiras disputas, e nem sempre são leais e éticas. É um momento de configuração de forças, e as disputas podem ser até mais agressivas que no período eleitoral real, contra opositores declarados e legalizados.

Estes atores se dividem em categorias distintas. São captadores de recursos, sejam eles humanos ou com características econômicas. Alguns têm forte influência em sindicatos, agremiações de classe, prestígio em veículos de comunicação, controlam associações de moradores, e até têm entrada fácil em comunidades e favelas. São os legítimos cabos eleitorais. Outros conseguem doações diversas de empresas, empréstimos de lojas para montagem de comitês eleitorais, ou mesmo dinheiro, de forma direta ou indireta, como pagar a despesa de um evento, decorar e mobilhar um comitê. Ou mesmo pagar o cachê de atendentes, recepcionistas, apoiadores de produção, etc. Sempre foi assim, e apesar da inovação do fundo eleitoral, tudo continua como antes.

A questão é muito simples: O dinheiro que é destinado aos partidos, pequenos ou grandes, tem destinação específica e orientação por indicação e interesses da cúpula dos partidos. Se estes dirigentes acharem que o candidato A tem mais chance de sucesso que os candidatos B e C, evidentemente a divisão dos valores serão bem diferentes. Os candidatos “ungidos” pelos caciques dos partidos recebem tratamento inteiramente desigual, e muito mais.

As disputas eleitorais começam sempre dentro dos partidos. Seja para conquista uma vaga na nominata, de um “número de candidato” mais fácil de ser lembrado, um lugar como candidato ao executivo e até um favorecimento na cobertura financeira; principalmente agora que se tem a perspectiva de caixa com dinheiro do fundo eleitoral.

Naturalmente todas as disputas tendem a animosidade, e muitas vezes as sequelas dessas “escaramuças internas”, seguem até o período eleitoral de fato, com inimizades severas e prejuízos para todos, inclusive para o partido.

Nesse período pré-eleitoral, como o que vivemos neste momento, as disputas posteriores são menos importantes. Neste momento de agora o que importa é garantir uma posição. As ações são imediatistas e com foco para dentro do partido ou do grupo político onde o candidato esteja situado. Fazer parte de um grupo da “situação” é sempre disputado, esteja a gestão em boa ou má situação, do ponto de vista de aprovação popular. A menos que esteja muito ruim, estar na “situação” sempre tem suas vantagens. Ser um candidato da situação é a perspectiva de garantir votos na casa dos 30 % do eleitorado.

No caso de Niterói, por exemplo: a administração do governo Rodrigo Neves, apesar dos percalços recentes, tem situações de vantagens e acertos. O município tem muito dinheiro em caixa, e apesar das críticas, tem muitas obras no percurso deste último mandato. Não se pode negar o ícone governamental do Túnel de Charitas\ Região Oceânica. As obras da Transoceânica têm muitos problemas e discordâncias, mas para a maioria popular, foi um ganho, acham que foi bom. O Hospital Getulinho foi reaberto, o hospital Mario Monteiro foi reformado, o Hospital Carlos Tortelly vai receber novos equipamentos, incluindo um Centro de Imagens, e o Médico de Família tem um papel muito importante na saúde da cidade. Alguns dirão que não faz mais do que a obrigação. Isso é verdade, mas, o fato de fazer se traduz em aprovação e votos futuros. Isso é inegável. Podem-se questionar tudo, até a qualidade das ações, mas, do ponto de vista do eleitor médio, onde a informação e sentimento crítico são limitados, o governo municipal tem muita aprovação. A secretaria de administração está toda ajustada, bem configurada e mostra acertos e segurança. As contas estão em dia e os salários do funcionalismo são pagos pontualmente. A conservação e limpeza pública estão muito bem no cenário da cidade e as pessoas reconhecem este mérito. A secretaria de Conservação e a CLIN estão com altos índices de aprovação. Do ponto de vista eleitoral, tudo isso representa benefício, e vai ser “moeda de troca” na hora da eleição. Ter a máquina municipal na mão é realmente uma grande vantagem.

Visto sem paixões, a situação (governo municipal) tem muitos problemas, como a questão viária com um trânsito caótico e insuportável, mas, na hora de pesar os erros e méritos, uma parte substancial do eleitorado vai aprovar esta administração e dissociá-la do Rodrigo Neves e seus problemas. O povão não questiona a imensa quantidade de secretarias e o número de comissionados. O povo não sabe e nem quer saber disso. Eles acham que este grande contingente é para beneficiar o município e manter a máquina funcionando.

Os acertos vão superar as questões com os empresários dos transportes coletivos, com a mídia autorreferente, problemas com a Agência de Publicidade- Prole e as ligações e suspeitas com Rodrigo Pessoa, da UTC. Todos se esquecerão do prefeito e sua vivência petista. Esquecerão as ligações com Lula, José Dirceu, Marcelo Sereno, Lindbergh Farias e Sergio Cabral. Ele agora integra o PDT, aquele que era do Jorge Roberto Silveira. Este partido atual, nas mãos do questionável Carlos Lupi, já não tem tanta força, mas, tem imagem melhor do que o famigerado PT. Embora o prefeito ainda mantenha estreita ligação com os petistas, incluindo o deputado Waldeck Carneiro (candidato?) e a vereadora Verônica Lima.

O povo invariavelmente esquece, e seus defensores de Neves dirão que era apenas uma situação circunstancial, coisas da política como numa foto momentânea. Nada se prova e nada se pode fazer. E é assim que funciona. E se nada lhe acontecer até o fim do mandato, será um cabo eleitoral invejável. Esta é a realidade.

Entretanto, esta possibilidade de fazer seu sucessor tem ingredientes perigosos, como uma disputa interna no grupo político da prefeitura, com lutas bem dissimuladas, como se fosse uma guerra entre lordes ingleses. O embate pela preferência do executivo está e vai motivar muitas lutas subterrâneas e de teor muito danoso. Talvez exista por parte do próprio Rodrigo Neves a intenção de não apontar o “predileto”, como forma de controlar todo processo; e nesta disputa pela preferência ele consiga a adesão para si de todos os pretendentes com seus respectivos grupos. Ainda tem muito tempo para declarar essa escolha e é possível que o próprio Rodrigo estimule esta discreta, mais acirrada peleja.

As resultantes dessa situação já podem ser vistas na grande imprensa. De repente, sem motivação definida, um dos possíveis candidatos sofreu ataques com vistas a desconstruí-lo publicamente. Apontam responsabilidades e desmandos reprováveis na objetiva intenção de enfraquecê-lo eleitoralmente; na esperança que este desgaste seja refletido na escolha do “candidato do prefeito”.

Em seguida, saiu outra matéria condenatória e desqualificante para outro possível pretendente. Bateram muito e fizeram estragos.

É a clara atividade do “Fogo Amigo”, em prol da tentativa de arruinar reputações.

Normalmente, baseado em estatísticas históricas, este tipo de ataque não vem de forças contrarias, medindo forças. Estes opositores reais estão nesse momento tratando de se fortalecerem para disputa, se organizando nos mais diversos níveis. Não desperdiçam munição muito antes da guerra fatal.

Este diagnóstico é tão simples e claro como a ingenuidade de quem acha que poderá contar com “amigos da imprensa” para diminuir a influência de concorrentes sem que seja facilmente identificado.

Mas, os estragos serão feitos a despeito de qualquer cuidado ou restrição.

Somente se divertem os pretendentes opositores vendo o circo pegar fogo.

Rua Cônsul Francisco Cruz, 3 - Centro - Niterói/RJ

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