Eleição em Niterói: O Que Aconteceu?

Depois de passada a refrega eleitoral e quando os ânimos se abrandam, vem-nos a reflexão e inevitavelmente as perguntas: o que aconteceu? É como se todos empenhados na disputa perdessem a capacidade de raciocinar friamente. Quase sempre as respostas estavam à mostra, mas envoltas num véu que embriaga e impede a percepção mais próxima, como se fosse uma miopia às avessas.

Todo resultado eleitoral é previsível, embora, com alguma esperança de mudança, quem disputa com paixão segue lutando até a exaustão. Em Niterói, para muita gente foi surpresa, pelo menos, com resultado de tamanha desproporção. A questão tem fundamentos lógicos e é tudo muito simples, quando as circunstâncias se encaixam como uma espécie de trama do universo; afinal tudo se encaixou e conspirou a favor do vencedor. Vejamos...



Poderia ter tido outro resultado? Poderia, se as condições dos opositores fossem outras. Vamos examinar inicialmente do ponto de vista de quem perdeu a eleição. A primeira perspectiva trata da percepção voltada para as memórias mais recentes. Nessa eleição estavam dois candidatos, digamos, veteranos nesse pleito. O Flavio Serafini (PSOL) e Felipe Peixoto, ambos com bons desempenhos em eleições anteriores. Eram evidentemente os que mais teriam chances nessa disputa de 2020. Felipe Peixoto mais ainda, pois foi para o segundo turno na primeira disputa, e perdeu por pequena diferença; repetiu o feito quatro anos após. Flavio Serafini teve 50 mil votos na primeira eleição e 47.069 na segunda vez, com percentuais de 20% e 18,5%. Nessa terceira disputa ficou em segundo lugar, com quase 24.00 votos, com percentual de votos de 9,8%. Entre os pleitos municipais, elegeu-se deputado Estadual, em 2014, com pouco mais de 16 mil votos; e 2018 reelegeu-se com 64 mil votos, aproximadamente. Mas, entre uma eleição e outra reside a interferência dos novos fatos.

Felipe Peixoto que vinha de uma experiência exitosa como secretário Estadual de Pesca e Abastecimento, posteriormente recebeu o convite desafiador para ser secretário Estadual de Saúde, que é a mais difícil e perigosa secretaria do governo do Rio de Janeiro. Ela, pelos apelos e facilidades que possui, se constitui no maior antro de oportunistas e corruptos do país. Não é que outras secretarias estaduais de Saúde, pelo Brasil não tenham os mesmos problemas. São similares em muita coisa; apenas a do Rio de Janeiro, tem uma tradição de escândalos, desatinos e desgraças, que vence as demais reunidas. Ela é tão complicada e ardilosa, que mesmo os mais experientes e competentes secretários que por ela passaram tiveram graves problemas. Acreditamos que para políticos ela é uma armadilha destrutiva e desconstrói até reputações muito sólidas. Quando Felipe Peixoto veio a este jornal comunicar a sua decisão de tornar-se secretario de Saúde, ouviu desse editor a seguinte frase: “você naturalmente sabe o risco que vai correr, pois, sabemos que dessa secretaria só se sai preso ou desmoralizado. O que você prefere? Felipe respondeu de pronto: “comigo vai ser diferente”. A sua juventude e a excessiva autoconfiança o levaram às labaredas do inferno dessa secretaria. Felipe é do bem e é correto, mas para este caso isso é pouco. Com tantas armadilhas e interesse milionários, capciosos questionamentos de velhas raposas da ALERJ, somadas às pressões dos grandes grupos, ávidos de continuar corrompendo e subtraindo milhões com superfaturamentos, Felipe parecia uma folha de papel no meio de uma ventania. Tomou medidas duras e corretas, como expor as mazelas da secretaria, mandou auditar contas e estoques de medicamentos. Mas, ainda assim, os “inimigos” se valeram de pequenas intrigas para acusá-lo, desconstruí-lo, além da sua indesejável Ouvidoria, que montou uma barreira contra desvios e superfaturamentos. Entretanto, ele perdia até quando ganhava. Deixou a secretaria para novamente disputar a eleição municipal, mas, ali já sentiu o peso da desconstrução. Ainda assim foi para o segundo turno, mas teve um desempenho inferior que na outra eleição. Rodrigo Neves tornou a vencer. Os problemas e conseqüências da estadia na secretaria de Saúde começaram a persegui-lo, aliado a perseguição de Rodrigo Neves. Teve tantos problemas que acabou juridicamente inelegível. Mesmo assim concorreu a deputado Estadual, com a candidatura sub judice e considerado inelegível por denuncia de Rodrigo, ainda assim, ficou na primeira suplência. Conseguiu desvencilhar-se das acusações, mas o estigma da corrupção o perseguiu, ainda que nada fosse provado contra ele. Com esse histórico veio disputar a terceira eleição municipal, e aparentemente sem explicação, ficou em quarto lugar com estreitos 17.469 votos, ou seja, 7,2% do percentual dos votos. Este panorama é uma das razões do resultado dessa eleição em Niterói.

Agora vamos ver por outro ângulo: o candidato Axel Grael já foi vice prefeito de Rodrigo Neves no primeiro Governo, e secretário no segundo. Sempre teve atividades produtivas durante os governos, mas, nunca ficou nos holofotes e sua discrição condiz com o seu temperamento. Não tem, nem de longe, um perfil vívido de um político comum. Grael tem postura mais de um técnico e nem se esforça para parecer “comandante e nem populista”. É do caráter dele e por mais que possa se esforçar, não vai mudar muito.

E é aí que muitos perguntam: e como ganhou a eleição, e de forma esmagadora?

Grael (PDT) teve pouco mais de seis vezes a votação do segundo colocado. Teve 151.846 votos, contra o mais votado, o deputado Serafini (PSOL), que teve 23.834 votos. Nos últimos 30 anos não aconteceu nada parecido, incluindo uma vitória no 1º Turno, exceto uma eleição de Jorge Roberto Silveira. Aí ficam as perguntas no ar. O que foi que aconteceu?

É simples e matemático. A pandemia (Bendito Corona Vírus) caiu no colo de Rodrigo Neves como um presente, repleta de oportunidades eleitorais. Facilitou e deu legalidade a uma distribuição de dinheiro para quase 70 mil famílias, que receberam e continuam a receber 500 reais por mês, a título de ajuda emergencial. Na pior das hipóteses essas famílias representam 140.000 votos. Dessa forma tornou-se indefensável. Com todo respeito ao Axel Grael, quem ganhou a eleição foi a ajuda financeira ao povo. E quem pode condenar um prefeito que num momento de extrema necessidade salva seu povo da fome e da miséria total? A pandemia legitimou a “compra de votos”. Essa prática seria inadmissível em outra circunstância. Ganhou o Grael como ganharia qualquer ilustre desconhecido. O que estava na disputa era o “candidato do Rodrigo Neves”, que usou sabiamente a oportunidade. Rodrigo não fez nada ilegal, e não pode ser censurado por essas e outras práticas.

Rodrigo Neves mandou “desinfetar” as ruas da cidade. Embora alguns infectologistas ponham em dúvida a eficiência da ação. Pouco importa se mata ou não mata o vírus. Fez viver a esperança, agradou aos olhos do eleitor, assustado pela ameaça real. Quem pode condenar Rodrigo Neves por usar recursos públicos para distribuir frutas nas comunidades e locais mais pobres numa situação como a atual? Até errando em algumas ações, causando desconforto, Rodrigo Neves conseguiu para o Grael o que não conseguiu para si mesmo; quando foi para disputa do segundo turno, com uma votação muito menor, e em tempos normais.

É preciso salientar que foram perdidos em torno de 30% dos votos na cidade. Muita gente não foi votar. E ainda assim o candidato do prefeito teve a maior votação nominal e diferença numérica do concorrente de toda história do município. Fora tudo isso, Rodrigo montou uma imensa coligação com quase 20 partidos. Poderíamos dizer que alguns desses partidos em nada contribuem. Mas, não atrapalham e ainda no marketing apresenta volume de apoios, de adesão, que é uma forma de afirmação e convencimento do eleitor desinformado.

Podem falar o que quiserem do Rodrigo Neves. Mas, algo é irrefutável: fez uma campanha calculada e usou muito bem cada oportunidade. Nos últimos 30 anos a eleição do representante da situação se repete. Só que dessa vez extrapolou todas as expectativas. Foi de “lavada”.

Sabíamos dessa perspectiva e tentamos alicerçar outras candidaturas como um ato de resistência. E não retiramos nada do que dissemos a respeito dos candidatos.

Mas, a matemática e a força tornaram-se imbatíveis.