E a Quarta Feira de Cinzas?

No calendário cristão ocidental a quarta-feira de cinzas é o primeiro dia da Quaresma. Os cristãos católicos recebem as cinzas neste dia como um símbolo para a reflexão sobre da mudança de vida, o dever da conversão, refletindo sobre a fragilidade da vida humana, transitoriedade, efêmera existência, sujeita à morte.

Ela ocorre quarenta dias antes da Páscoa sem contar os domingos (que não são incluídos na Quaresma) ou quarenta e seis dias contando os domingos.

Esta é a visão religiosa de uma data que é repleta de outros tantos componentes existenciais.

A quarta feira de cinzas, do ponto de vista poético, representa o fim da festa, da folia do carnaval, do novo e findo amor passageiro, das paixões invocadas em nome da razão, como se fosse possível fundir paixão e razão. Mistura de tantos receios que se perdem no desejo do encontro do carnaval. É a  festa mundana, resultados de caldos diversos e acima de tudo, do desejo de fluir, dar asas a imaginação reclusa e ponderada, arrebatada pelos limites comportamentais, que engana e trai tanta gente nos dias que antecedem a quarta feira das lamentações.  No pós guerra não adianta lamentar...

É um dia de reflexão e ouvir a letra de Buarque ao longe: “carnaval desengano. Deixei a dor em casa me esperando. E brinquei e gritei e fui vestido de rei... quarta-feira sempre desce o pano”.

A quarta feira é o encontro de nós mesmos, prontos a rasgar a fantasia e cair na realidade que tanto nos desafia e por vezes incomoda.  É hora de acordar, ir para “o batente”, trabalhar e refazer as perdas, todas, no sentido mais intrínseco das nossas vozes roucas de tanto pedir perdão.

Assim como na antiga Roma, os escravos eram liberados para festa e só retornavam sete dias depois. Era permitido quase tudo a quem não tinha nada. Findo prazo, “quarta feira” era dia de agonia; de retorno ao cárcere. E quantos de nós ainda não vivemos a mesma circunstância? Depois da lua cheia, retornar ao dever e a contrição, assemelha-se aos escravos romanos.

Carnaval é uma festa que se originou na Grécia em meados dos anos 600 a 520 a.C.. Através dessa festa os gregos realizavam seus cultos em agradecimento aos deuses pela fertilidade do solo e pela produção. Com as reviravoltas do tempo, a mesma Grécia vive hoje uma extensa quarta feira de cinzas. Tomara que ressurja das cinzas.

Do ponto de vista da economia brasileira a quarta feira de cinzas significa o marco zero do ano econômico. Vivemos, como diz a própria origem do nome em latim, carnaval: carnis valles, sinônimo e referência ao prazer, genérico ou simbólico, ou mesmo substantivo. É a expressão de comer a carne em todas as suas maneiras e em desejos inconfessáveis. É alimento do corpo ou da alma, que nos impulsiona ao trabalho.

Mas a quarta feira também prenuncia um ciclo de se finda com uma sexta feira da paixão, lembrança de dor física e moral, com a mesma semelhança que exercemos as nossas vergonhas dos nossos feitos, no pós carnaval, ou com a nossa dor de não ter feito nada que desejávamos fazer; e teremos que esperar um novo ciclo para nos impor métodos ariscos e disfarçados para sermos aquilo que secretamente somos, perdidos em silêncio.

A quarta feira tem a vantagem nos tornar adolescente. Lembrar o que realmente fomos e aquilo que almejávamos ser.

Que fantasia teríamos que retirar nos dias atuais? A lembrança daquele olhar único que não veremos jamais... Olhar para trás como se contemplássemos um vídeo cibernético em que coubessem nossas vontades e houvesse tempo para expurgar aquilo que detestamos em nós; e que insiste em prosseguir conosco como um indesejável passageiro do nosso corpo, ameaçando tomar a nossa alma.

Tempo de tantas quartas e carnavais infindáveis. Desejo de apagar as rugas, injetar juventude e até um pouco de delírio. Tão necessário a nossa suposta normalidade. O resto é teatro, literatura e engodo intelectual.

Por fim... Na quarta feira sempre desce o pano...

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