Divagações Sobre a Felicidade

Ser feliz é uma obrigação? A meu ver, sim. E digo mais: ser feliz na sociedade de hoje é imprescindível! Caso contrário, não teríamos tantos livros de auto-ajuda, vários guias espirituais, inúmeros antidepressivos milagrosos...  "Ser feliz" é, sim, a busca de todo ser humano na contemporaneidade. Somos avessos a qualquer tipo de dor, tristeza e insegurança. Temos que ser felizes 24 horas por dia, 7 dias por semana, 365 dias por ano. Mas cansa! E sabe por qual razão cansa? Pois, a questão não está em "ser feliz", mas sim em demonstrar essa felicidade. Afinal, não basta ser feliz... É preciso que o mundo ao redor reconheça, veja, compartilhe, identifique esta sensação. É o que, por exemplo, as pessoas fazem no Facebook: mostram quão "felizes" elas são e ainda postam as provas: frases, fotos, vídeos e demais recursos multimídias disponíveis. Mas aquilo não é felicidade. Não é! É demonstração de felicidade! Felicidade é o que você sente. É imaterial, “impostável” e impublicável! O que nos remete a uma questão: quando realmente estamos sendo felizes e quando estamos fingindo ser felizes, para cumprir essa "necessidade" por felicidade?

Se alguém me pergunta: "tudo bem, Carol?" e eu respondo "tudo ótimo!", o máximo que eu recebo em troca é um "que bom"! Porém, se eu digo um "mais ou menos, vou levando", em geral, as pessoas em volta se compadecem, como se algo tivesse que ser alterado, mudado, trocado. Será? Será que a infelicidade, os problemas, os contratempos não são parte da vida e devem ser também valorizados? Não são nos momentos tristes que crescemos e amadurecemos? Muitos poderão dizer que as pessoas que gostam de nós ficam preocupadas e querem apenas ajudar. Eu concordo. Mas não temos a obrigação de sermos felizes o tempo todo. E, quando estou triste, não significa que preciso mudar algo. Pode ser que eu apenas precise passar pelo "luto", sentir a "perda", conhecer a "dor". Significa que eu apenas preciso aprender. E aprender dói. Arde. Endurece. No entanto, é esta dor que dignifica, fortalece e prepara para a vida. É completamente clichê, entretanto, vale citar o que deve ser a frase mais batida do grande filósofo alemão Friedrich Nietzsche: "o que não me mata, me fortalece".

E qual o motivo de tanto questionamento? O último filme que assisti: "Sete Dias com Marilyn" ("My Week with Marilyn", no original). Uma película sobre a mulher mais famosa do mundo, a mais idolatrada! Linda, inteligente, talentosa, desejada, cultuada, invejada, rica,... E triste! E, então, o mundo pergunta: "Como ela podia ser triste? Por qual motivo ela tinha tantas crises de insegurança?".  Não é preciso ir fundo para descobrir. Para quem não sabe, Marilyn nunca conheceu seu pai biológico. Passou grande parte da sua infância em casa de parentes e em orfanatos. Casou cedo e seu primeiro marido "a abandonou" a serviço, pois foi transferido pela Marinha para o Pacífico Sul. Sua vida artística deslanchou por acaso, ao tornar-se modelo fotográfico. O marido não gostou do interesse de Marilyn pela arte e os dois resultaram se divorciando. Marilyn preferiu sua carreira e o casamento ficou para trás.

Sua habilidade para a comédia, sua sensualidade e presença em eventos levaram-na a conquistar papéis em filmes de grande sucesso. Marilyn foi sempre cultuada pelo seu corpo escultural, sua beleza e pela sua sensualidade. Casou-se pela segunda vez e, novamente, sua imagem repleta de sexualidade tornou-se um problema em seu casamento que, não tardaria em findar. No intuito de melhorar sua performance e esquecer de vez o simples culto ao seu físico, ela mudou-se de Hollywood para Nova York, para estudar na escola de atores de Lee Strasberg. Marilyn casou-se ainda mais uma vez e, de novo, o matrimônio não durou. Foi amante do presidente John Kennedy – como dizem, o único e grande amor da sua vida. No entanto, Marilyn sabia que Kennedy desejava apenas a "atriz sensual", não a mulher que ela era. Ele pretendia livrar-se dela com elegância, pois, esse relacionamento lhe prejudicaria perante os poderosos da política.

E, o que vi no filme, foi uma mulher frágil. Ela adorava ser Marilyn. No entanto, não era possível ser "Marilyn" o tempo todo. Não dá pra "brincar de ser feliz" sem que, em algum momento, a máscara venha a cair. Remédios ajudam. Psicólogos também. Amigos igualmente. No entanto, não resolvem. Em seus 36 anos de vida, Marilyn é a prova de que seria importante – fundamental, talvez – ter a chance de se afastar dos holofotes, de se privar da mídia, de tirar férias do seu principal personagem: ela mesma! Marilyn precisava romper seu contrato de fidelidade com a felicidade, encarando assim a simplicidade dolorosa da vida. Só então, ela conseguiria emergir novamente, mais segura de si, consciente do que ela representava, do que ela realmente era. Pronta, finalmente, para ser Marilyn Monroe.

A versão oficial é de que Marilyn morreu por overdose causada por antidepressivos. Os remédios que a mantinham "bem" a mataram. A busca pela felicidade constante a matou.

E então? Será que tentar ser feliz o tempo todo vale à pena?

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