Descendo aos Infernos da Amaral

A Avenida Amaral Peixoto, principal artéria do Centro da cidade de Niterói sempre foi palco de malandragem noturna, prostituição ambulante, incluindo de travestis. É local de trânsito de boêmios e vagabundos, apesar de ser moradia de muitas famílias de bem. De uns anos para cá se tornou local de encontro e permanência dos chamados “povo de rua”.

Pessoas que não possuem moradas e uma parte de solitários apartados do convívio familiar povoam suas noites. É claro, e para quem não sabe (e ficam levando alimentos, cobertores e roupas), uma significativa parte deles não são genuinamente “povo de rua”. São pessoas que moram em outros municípios, como Maricá, Itaboraí, Rio Bonito, Tanguá e etc. Eles vêm para Niterói em busca de sustento, e fazem de tudo um pouco; mas, a maioria são ambulantes, alguns por conta própria e outros trabalham para terceiros. Muitos são vagabundos profissionais, com eventuais episódios criminosos. Mas, possuem suas casas, e muitos têm família, com filhos dependentes.

Para economizarem, ficam pela cidade toda semana e só retornam às origens nos finais de semana. Aí, dormem onde podem, e a Amaral Peixoto cai como uma luva. Tem inclusive aquela sopa quentinha que “missionários e religiosos” costumam levar à noite. Alimentando a pobreza e a conveniente ocupação.

Fazem amizades, tomam umas cachaças juntos, alguns gostam de cheirar cola ou fumar um baseado. Depois de algumas doses, fumadas e cheiradas, como tem muitas mulheres no meio, é hora de um aconchego; e muitos fazem sexo explicito ali na rua. Se observarem bem, tem até certo folclore e romance torto. Já vi um casal, que arruma na calçada um verdadeiro “quarto”, debaixo das marquises. Durante o dia guardam seus pertences e colchões nos mais imprevisíveis lugares, como num teto de banca de jornal, ou em cima de algumas marquises. Este “ilustre casal requintado” possui roupas de cama, duas mesinhas de cabeceira, com jarro e florzinha. Um encanto de decoração marginal na noite de gatos pardos. Isto feito, lar, doce lar, vamos ao trato: e tome-lhe sexo, e mais sexo, e bem mais sexo. Bem dispostos, alimentados e protegidos pela municipalidade, têm mais é que fazer sexo na rua, como manda os bons manuais da desordem.

Os sacos de dormir são usuais e fáceis de guardar, e se tiver um jeitinho, cabe mais um, nem que seja do mesmo sexo. Estando ali quentinho, no aconchego, não custa nada fazer um sexozinho casual. Afinal, ninguém é de ferro, e muitos gostam do produto. E nada como uma boa noite, levando ferroadas para amanhecer refeito da fantasia e voltar a ser muito macho para enfrentar a Guarda Municipal. Afinal, o sonho de verão já passou. Agora é a vera, e pau na mula! Bem verdade que quem bancou a mula a noite toda foi ele... Numa sinfonia de gemidos que os moradores da Avenida são obrigados a conviver.

Assusta-me ver atualmente tantas crianças no meio daquela desordem. E são crianças muito pequenas, de 3, 4, 5 anos. Correm de um lado para outro, como se fossem centelhas de uma fogueira que arde, labareda infernal, preconizando destinos temerosos. Ali nada se explica, apesar dos sociólogos de plantão.

Chamam-me a atenção os novos integrantes, flagrantemente envergonhados. Notam-se pelo jeito de vestir, cortes de cabelo e outros modos, que são pessoas de outros patamares sociais que por inesperados infortúnios contínuos, desceram aos infernos, embora tenham ainda a esperança do retorno; ou considerem um “revés circunstancial”, de fácil reversão. Pobres novos demônios de esperança vã. Alguns degraus descidos, portas trancadas no astral e doenças da alma, são muito difíceis de recompor na realidade anterior. A crise econômica é sempre siamesa da social. Morre o status, nascem os filhos de satã, sodomizados pelos poderosos.

E pergunto: que cidade é essa? Quem são os donos e que Avenidas são tão múltiplas e facetadas, que durante o dia fazem negócios outros e caminham largos, e quando anoitece descem aos infernos da pobreza, inclusive espiritual.

Agora a coisa está passando de séria para muito grave. Retrato administrativo da ausência a da falta de compaixão. Desordem consentida numa dificuldade tamanha de uma Amaral que jamais amaremos. Caminho do inferno, de Salim ou de Satã. Quanto vale o meu corpo?

E quem, a seu juízo, será o alcaide final?

Rua Cônsul Francisco Cruz, 3 - Centro - Niterói/RJ

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