Deepfakes a Nova Verdade Virtual

Nos últimos tempos, a versão da verdade ficou ameaçada pelo surgimento das Fake News, que são as notícias falsas, espalhadas, principalmente, na internet, via Redes Sociais e os chamados blogs sujos. O intuito de auferir benefícios políticos e empresariais, destruindo reputações dos oponentes, já causou a ruína de muitos injustamente. Na hora de uma eleição, este expediente criminoso, abaixo da ética e do bom senso, é utilizado largamente, e muitas vezes, de forma indecente e injusta elegeu alguns, destruindo outros tantos. A coisa ficou tão grave que a justiça mostrou-se impotente para conter o avanço dessa prática nefasta, levando a criação de técnicas e aplicativos para deter o avanço de notícias falsas.

Entretanto, na evolução das maledicências, surgiu em 2017 outra forma de perverter a verdade e a própria realidade. Teve início inocentemente, com o intuito de ser um meio de diversão, humor ou paródia. Mas, o mal não cochila e passou a usar o novo “brinquedo” para práticas ainda mais destrutivas.

Agora é hora das “deepfakes”. Uma forma de distorcer e confundir a verdade, utilizando um meio, que até então era considerado prova irrefutável. No passado a maior prova de um fato era a apresentação de um vídeo, que tantas vezes derrubou muita gente, quando não mandou para prisão. Um vídeo, muitas vezes feito secretamente, era “a prova”. Não dava para negar o flagrante de alguém, vivamente e a cores, falando e sendo visto praticando um delito de corrupção, entrando num local proibido ou conversando com alguém que incriminaria o elemento chave.


Agora acabou. Essa prova áudio-visual pode ser inteiramente forjada, com todos os requintes e pompas. Chegou a era das “deepfakes”, onde qualquer um, onde quer que seja ou esteja, poderá ser inserido numa história qualquer apresentada num vídeo.

Um sistema de computação foi criado e se desenvolve cada vez mais, para criar ou “instalar” alguém em situações mais diversas, em forma de vídeo. Troca-se (ou instala-se) o rosto de alguém, com todas as características em outro rosto, acrescenta-se uma voz falsa, mais igual e de imperceptível diferença, até mesmo para os peritos legais.

A “deepfake” é uma tecnologia que usa inteligência artificial (IA) para criar vídeos falsos, mas realistas e convincentes, de pessoas fazendo coisas que elas nunca fizeram na vida real. A técnica que permite fazer as montagens de vídeo já gerou desde conteúdos pornográficos com celebridades até discursos fictícios de conhecidos políticos. Agora circulam debates sobre a ética e as conseqüências da tecnologia, para o bem e para o mal.

O termo deepfake apareceu em dezembro de 2017, quando um usuário do Reddit com esse nome começou a postar vídeos de sexo falsos com famosas. Com softwares de deep learning, ele aplicava os rostos que queria a clipes já existentes. Os casos mais famosos foram os das atrizes Emma Watson e Gal Gadot.


O termo deepfake passou a ser usado, indicando uma vasta gama de vídeos editados com “machine learning” e outras possibilidades da inteligência artificial.

Efeitos especiais de computador que criam rostos e cenas no audiovisual não são novidade; o cinema faz isso há muitos anos. A grande diferença do “deepfake” está na facilidade com que ele pode ser produzido e usado, tendo em vista o meio de difusão instantânea que é a internet.

O método atual é simples e barato, comparado ao que costumava usar. Qualquer um com conhecimentos de “deep learning” e acesso a algoritmos, com um bom processador gráfico e um grande acervo de imagens pode criar um deepfake.


A Elaboração dos Deepfakes


São utilizados softwares baseados em registros existentes, bibliotecas de código aberto dirigidas ao aprendizado de máquina. Usam “TensorFlow” aliado ao “Keras”, uma API de deep learning escrita em linguagem Python. Para o leigo tudo isso é muito complicado.

A partir de informações com milhares de fotos e vídeos das pessoas envolvidas, são processadas automaticamente por uma “rede neural”. A inteligência artificial vai aprendendo, como uma criança que processa e aprende novas informações; como é a pessoa, que detalhes tem, como se movimenta, e até as expressões faciais.

Esse condicionamento Intelectual da máquina é baseado no rosto original do vídeo e decodificado com o novo rosto, até que o sistema seja capaz de encontrar similaridades entre os dois rostos, misturar e adequar um sobre o outro.

O deepfake é recente e ainda está em desenvolvimento, embora já seja capaz de confundir a todos com as suas “montagens e criações”.

Aperfeiçoa-se não só na forma, mas nos sons das vozes humanas, numa proporção que é quase impossível detectar que se trata de uma fraude auditiva. Reproduz fielmente falas, pausas, até vícios de linguagem. Existe um programa da Adobe que consegue a partir de amostras reais, imitar falas com a fidelidade a “voz modelo”. É sofisticado, com sincronização labial e reencenarão facial, que recria e reedita a verdade.


A partir destes novos métodos de criação de vídeos, anulam a velha prática de ter os vídeos como provas incontestáveis. Atualmente é possível apresentar um vídeo com alguém cometendo crimes, dizendo textos inaceitáveis, com todas as características reais e de contestação improvável. É uma apresentação “real”! Faz-nos lembrar de antigos filmes de ficção científica onde robôs eram criados, com todas as características de uma pessoa, incluindo seus sentimentos, conceitos morais, defeitos pessoais e até atividade sexual idêntica. Esses “Robôs Replicados” serviam para substituir pessoas, que por alguma razão deixavam de existir. A vida, os afetos e efeitos podiam ser perpetuados. Muitas vezes nessas estórias da ficção pessoas de verdade acabavam apaixonadas por robôs, que por sua vez, em alguns casos os robôs retribuíam. Depois de algum tempo, ninguém mais sabia quem era humano ou era robô. O que era tecnologia ou “vida verdadeira”. Estes deepfakes estão na mesma linha de raciocínio e conduta. Ainda poderão confundir a verdade de tal forma que não saberemos mais o que é um fato verdadeiro, ou um fato criado convenientemente, para propósitos, nem sempre do bem. Vai chegar um dia, que um vídeo para ser “verdadeiro” deverá ser “certificado”, tendo o aval de testemunhas ou conselhos de validade. Parece ficção, mas está aí, bem na frente do nariz de qualquer um de nós.

É tudo tão grave que não se deve mais levar a sério tudo que aparecer na internet; e principalmente compartilhá-lo sem checar a sua origem e veracidade. Hoje qualquer um pode ser vítima de uma fraude visual e auditiva; ou abriu-se uma linha de defesa para corruptos e bandidos, que poderão, mesmo flagrados, negar o fato e dizer que se trata de uma “deepfakes”. Lamentavelmente.

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