Bolsonaro: Uma Rota de Conflitos. O Que Virá?

Jair Messias Bolsonaro foi eleito especificamente por defender a bandeira do anti-petismo, para caçar os corruptos; e apesar de muito desajeitado, angariou seguidores das mais diferentes procedências. Ser um presidente que atuaria no desmonte do grave aparelhamento do Estado, feito por Lula e Dilma, era tudo que a Nação pedia. Seria ele ou qualquer outro, desde que defendesse com veemência este projeto.

Desde a tentativa de assassinato que sofreu durante a campanha vem sendo relevado nas suas infelizes declarações. Os próprios seguidores o defendiam dizendo que assim ele se recuperasse do trauma tomaria um rumo mais conservador e confiável. Nada disso aconteceu e desde que assumiu a presidência, não desceu do palanque eleitoral e toma atitudes incompatíveis com o rito do cargo. Desde que assumiu, não passou um dia que não tivesse um conflito. Chegaram a dizer que se tratava de uma estratégia, pois com a frontal e constante oposição que sofria e sofre, não governaria e teria que “compor com as velhas raposas”. Não fez acordos, ouviu sempre os filhos, especialmente o vereador Carlos Bolsonaro, e se fala que foi criado o “gabinete do ódio”, sob orientação desse filho. A verdade é que em cascata somente praticou embates de toda ordem, que vai da mídia aos pastores. Agora se vislumbra uma crise maior e terá que fazer tudo que negou para manter-se no poder.


Em Janeiro de 2019 Bolsonaro editou o decreto de armas, flexibilizando o porte. Não consultou ninguém, muito menos Sergio Moro, ministro da Justiça e Segurança. Ainda nesse mês Bolsonaro mandou suspender a nomeação da cientista política Ilona Szabó, do Instituto Igarapé - especializado em segurança pública – Ela seria apenas mais um suplente do Conselho Nacional de Política Criminal e Penitenciária. Mas, como tem posições políticas claramente progressistas e já havia se manifestado contra a flexibilização das armas, Bolsonaro não teve dúvidas: mandou que Moro “desconvidasse” a Ilona Szabó, e tornasse sem efeito qualquer ato já publicado. Moro engoliu o constrangimento e obedeceu sem protestar.

Uma contenda entre Carlos Bolsonaro, filho do presidente e o ministro Gustavo Bebianno da Secretaria-Geral de Governo, aliado de primeira hora e liderou a campanha eleitoral a presidência da República, e presidente do PSL, teve episódios bizarros. O Carlos levantou dúvidas a respeito da lealdade do ministro, mas, o pano de fundo era uma questão que já fermentava desde o fim da campanha. Foi a notória situação de uso indevido de verbas eleitorais. A família Bolsonaro fritou abertamente Gustavo Bebiano, tratado como mentiroso e sem caráter. Bebianno foi sumariamente exonerado. Esperneou, deu entrevistas, ficou muito magoado, e sob intensa pressão, foi vítima de um infarto fulminante e morreu.

Jair Bolsonaro não comentou o fato. Um áudio vazado demonstrou que Bolsonaro tinha razão para reclamar do ex-ministro. Mas, incoerentemente e por motivos similares, ele mantém o ministro do Turismo, Marcelo Antônio, por ter patrocinado e acobertado outras “laranjas” em Minas Gerais.

O general Carlos Alberto dos Santos Cruz ocupava o cargo estratégico da Secretaria de Governo Bolsonaro. Envolveu-se numa crise com Carlos Bolsonaro, filho do presidente, e o escritor Olavo de Carvalho. Foram várias pequenas razões, mas, dar declarações sobre regulamentação das Redes Sociais foi a gota d’água. Era fiel escudeiro de Bolsonaro, um homem de muito prestígio e serviços prestados à Pátria. Dirigiu importantes missões internacionais e abraçou a candidatura de Bolsonaro quando ele era ainda considerado um azarão na “corrida presidencial”. Na época Santos Cruz era o secretário-executivo, atrás somente do ex-ministro Raul Jugmann do Ministério da Segurança Pública do governo Temer. Bolsonaro não considerou nenhum aspecto dessa lealdade e apoiou o filho e passou a fritar abertamente o general. O resultado foi a queda do Santos Cruz no início de junho de 2019. Impiedosamente.

Em Julho de 2019 o ministro o Supremo Tribunal Dias Toffoli suspendeu as investigações que usavam dados de órgãos de controle da Receita Federal e do COAF, depois de pedido da defesa de Flávio Bolsonaro, filho do presidente. Bolsonaro defendeu a medida e entrou em rota de colisão com Moro ao saber que Moro conversou com o presidente do STF para fazê-lo desistir da medida. Chegou a dizer que se ele não ajudava, não devia atrapalhar.

Moro preparou um pacote anticrime, mas não contou com apoio decisivo do presidente. Bolsonaro preferiu pedir a Rodrigo Maia, presidente da Câmara, para dar prioridade e pautasse a Reforma da Previdência. Isso em agosto do mesmo ano. Contrariou o Moro e ainda lhe disse que naquele momento ele não tinha mais a caneta na mão, como comandava a 1 3ª vara Federal de Curitiba, quando era juiz. Em seguida Bolsonaro transferiu o COAF do Ministério da Justiça para o Banco Central, enfraquecendo o combate a lavagem de dinheiro e a autoridade de Moro.

No meado de outubro de 2019 o presidente entrou em conflito com o seu Partido, o PSL. Criou o Partido "Aliança pelo Brasil" que não está registrado no TSE, e precisa de 500 mil assinaturas de apoiadores para concessão do registro.

Neste episódio rompeu com aliados importantes como os deputados Luciano Bivar, Alexandre Frota, Joice Hasselmann, que era sua líder na câmara, o delegado Valdir, que também era líder na Câmara. O Líder do PSL no Senado, Major Olímpio, que sua desavença teve início e meio com Carlos Bolsonaro, acabou rompido politicamente com o presidente.

Não satisfeito com diversas escaramuças com o presidente da Câmara deputado Rodrigo Maia, que visivelmente dificulta a aprovação da maioria das medidas provisórias e projetos do governo, Bolsonaro tem alguns governadores em posição discreta, mas de oposição ideológica contrária, como o governador do Maranhão Flavio Dino (PCdoB), do Ceará Camilo Santana (PT). Existem os governadores do Rio de Janeiro Wilson Witzel e do São Paulo João Doria, que se elegeram na “Onda Bolsonaro”, mas, com evidenciaram intenções de concorrer à presidência da República em 2022, forçaram um rompimento, valendo-se do destempero emocional do clã Bolsonaro. Tornaram-se desafetos.

No fim do ano (2019), Bolsonaro implementou o projeto do “Juiz de Garantias”, que Moro era contra. Mesmo assim, o presidente atuou de forma que o Congresso inclui-se o tema dentro do pacote anticrime de Moro, afrontando-o. O ministro do STF Luiz Fux derrubou a medida por meio de liminar, evitando mais uma derrota do ministro.

Mal começou janeiro de 2020 Bolsonaro declarou que pretendia recriar o Ministério da Segurança. Esta medida repartiria o "superministério" sob a direção de Moro, e o enfraqueceria muito. O ministro declarou se de fato isso acontecesse deixaria o ministério. Bolsonaro recuou e dias depois disse que desistira da ideia e que a chance da recriação era zero. Mas, a ameaça ficou no ar, pelos dois lados.

Veio a crise do Covid 19 e por razões óbvias o então ministro da Saúde Henrique Mandetta, que vinha administrando a crise tecnicamente, angariou muita popularidade, e começou a incomodar Jair Bolsonaro; estrategicamente e pensando em seu futuro político, começou a emitir conceitos contrários ao confinamento social. A sua desastrosa, proposta de retomar a abertura da indústria, comercio e serviços tem o objetivo de livrar-se das responsabilidades futuras da crise econômica que fatalmente virá. Tenta eximir-se de responsabilidades, como se dissesse: “eu tentei, mas foram todos contra mim”. Com esta postura entrou em rota de colisão como o ministro da Saúde que defendia tecnicamente o isolamento social. O governador de Goiás Ronaldo Caiado, padrinho político do Henrique Mandetta, partiu para o confronto com Bolsonaro, rompendo publicamente com o governo. Esta manobra pode estar associada ao projeto do DEM, de formar um nome para disputa a presidência em 2022. Caiado, era um dos melhores aliados do Bolsonaro, e foi uma grande perda em termos de apoio. Esta divergência popularizou ainda mais o Mandetta, que gostando da situação e da crescente popularidade, acirrou o confronto, investindo no seu futuro político. Faltaram a Bolsonaro o bom senso e a calma para não alimentar o crescimento do opositor. Resultado: queda do Mandetta e uma transição perigosa no meio de uma crise da saúde sem precedentes. No ritmo da crise, Bolsonaro cometeu muitos erros, incluindo dizer publicamente: “E daí? Lamento. Mas quer que eu faça o quê? Eu sou messias, mas não faço milagres!” Uma postura irresponsável, reativa e inadequada para um presidente da República. Confrontou publicamente com o governador João Doria num encontro de governadores, e conquistou um colegiado de governadores lhe fazendo oposição.

Imediatamente deu início à maior crise até agora, e que talvez tenha os piores desdobramentos para ele.

Sem ao menos avisar, exonerou o diretor da Policia Federal, Mauricio Valeixo. A maneira tem alguns agravantes: publicou a exoneração com a assinatura eletrônica sem a autorização de Sergio Moro. Comete delito, mas poderá apontar a responsabilidade para assessores. Retificou a publicação posteriormente.

Esta questão da substituição delegado Valeixo do já vinha sendo debatida entre ele e o ministro Sergio Moro, que era contra a saída do delegado, mas aceitava trocar por outro, desde que fosse ele o autor da escolha. Bolsonaro insistia que era direito dele fazer a escolha e queria a todo custo impor o nome do delegado Alexandre Ramagem. Publicou a exoneração, e Moro ao sentir-se afrontado mais uma vez, demitiu-se e foi publicamente dizer as razões da sua desistência do ministério. Acusou Bolsonaro de tentar uma interferência na Policia Federal para obter informações sigilosas, o que é ilegal. Principalmente por ter filhos investigados.

Moro é um ex-juiz Federal, com 22 anos de experiência em grandes conflitos. Para ir para um confronto como este, jamais iria desarmado. Certamente ele tem todas as provas de tudo que afirmou. E vai vencer esta batalha. Se Bolsonaro não fizer as tais composições que sempre condenou, fazendo as concessões da velha política, não conseguirá montar uma base de deputados que impeça o seu inevitável impedimento. Essa aproximação com o Centrão está em andamento, mas ficou em situação desfavorável. “Se ficar o bicho pega, se correr o bicho come!”

Na sua vida política, que tem aproximadamente 30 anos, passou e teve conflitos em oito partidos diferentes. Sempre saiu desses partidos sob conflito.

Conflito. Esta é a sua marca.

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