Bebel

Alguns professores marcam nossas vidas. Uma professora, em especial, teve uma participação marcante na minha. Espero que, caso esse texto chegue até ela, que a mesma não se zangue comigo por citá-la. Entretanto, em algum momento, o nome dela iria acabar aparecendo por aqui, pela sua incrível importância pra mim. Eu sempre a chamei de Bebel, mas o nome dela é Maria Isabel Pantaleão. Eu sempre fui uma excelente aluna em matemática e a Bebel foi responsável pela minha paixão tardia pelo Português. Passei horas e horas com ela – muitas vezes, apenas nós duas – estudando e analisando textos. Lembro-me das aulas em que ela colocava músicas de Chico Buarque para decifrarmos metáforas... E eu adorava quando, como que para me desafiar, ela selecionava as orações mais complexas para eu analisar a classe gramatical e a função sintática.

E por qual motivo estou falando da Bebel? Bem, esta semana fui ao cinema prestigiar um diretor que gosto muito: David Cronenberg ("Senhores do Crime", "Marcas da Violência", "Um Método Perigoso", etc.). E fiquei imaginando o quão maravilhoso seria poder fazer o que eu e a Bebel fazíamos juntas: destrinchar cada pedacinho da película, de forma a degustar cada paladar e sentir cada sabor da mistura. E foi o que eu fiz, mesmo sem a presença dela – infelizmente. E o bom é que me senti impulsionada a realizar as mais mirabolantes interpretações – como aprendi com Bebel e gosto de fazer até hoje. O excelente "Cosmópolis" retrata uma Nova Iorque completamente tumultuada, próxima ao caos, devido à desestabilização de seu sustentáculo: o capitalismo. Cronenberg entrega à Robert Pattinson ("Crepúsculo" e "Água para Elefantes") o papel principal da película: um milionário egocêntrico que quer cortar o cabelo num barbeiro do outro lado da cidade. E que está irredutível, mesmo sabendo que o presidente está no local, o que deixa todos os cidadãos com os nervos ainda mais a flor da pele. O filme se passa, quase que inteirinho, dentro da limousine de Pattinson. Cruzamos a cidade de carona com ele. Ele recebe visitas de atores fantásticos (Juliette Binoche, Samantha Morton, Mathieu Amalric, etc.) que agregam informações importantes ao contexto da trama. Antes de começar o filme, a frase "o rato se tornou a unidade monetária" ("a rat became the unit of currency") aparece na tela. Algumas cenas depois, Pattinson e o ator Jay Baruchel discutem exaustivamente sobre esta metáfora. Uma conversa calorosa, repleta de minúcias, onde os dois descrevem o ciclo de vida do rato, comparando-o ao dinheiro, até chegar ao roedor defunto, ao fim da célula primária do sistema, à sua morte por esgotamento. Quem gostar de papo-cabeça, nesta cena, com certeza, vai delirar!

O personagem de Robert Pattinson representa um milionário sem os sentidos. O dinheiro o tornou frígido. A sua busca incessante por algo que o complete, que o empolgue e surpreenda é a maior prova disso. Ele nunca está satisfeito com o que lhe é entregue. Seu constante "apetite" por algo que nem ele mesmo sabe identificar o que é, o torna uma pessoa infinitamente insatisfeita. Sua busca pela dor corrobora sua necessidade latente de sentir algo, como que para provar para si mesmo que está vivo. Paralelamente, sua limousine representa uma bolha que o separa dos outros "mortais". A ostentação do carro, o seu luxo e a sua blindagem, o mantém ainda mais distante do resto do mundo. Em dado momento, afirma-se inclusive que o veículo é composto de isolamento acústico. Ou seja, além de estar afastado da realidade, Pattinson não quer ter nem a chance de escutar o que a sociedade tem para lhe dizer. Seu exílio é completo dentro de seu castelo tecnológico sobre rodas. Vale a pena também prestar atenção na aparência do ator. Ele começa o filme "engomadinho", com o terno completo. Com o passar das cenas, ele vai ficando sujo, perdendo partes da vestimenta. As camadas que o compõe vão gradativamente sumindo, como se ele fosse saindo do seu esconderijo e renascendo. E para ressuscitar, ele precisa se despir de tudo o que o torna impenetrável. Ele perde sua fortuna, vai para o gueto, se desfaz de suas roupas, do carro, da esposa, do guarda-costas, de sua aparência impecável. Ele abre mão de toda a futilidade que o dinheiro pode comprar para voltar a viver e a sentir. Bebel, sem as suas aulas de português, com certeza, hoje, eu estaria atuando na área de exatas. E, se gosto de cinema, fotografia, literatura, enfim, a culpa é toda sua.  Tenho certeza que você é especial não apenas na minha vida, mas na de muita gente. Obrigada por tudo e parabéns por ser uma pessoa maravilhosa e transformadora!

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