A Verdade Mascarada

Existe um consenso de que a verdade é a propriedade de estar conforme com os fatos ou a realidade. A palavra verdade abrange o sentido de constância e fidelidade. É um estado de sinceridade, de caráter em atos justos, até nas palavras. Mas, temos intrinsecamente a propriedade da subversão da ordem; e daí podemos mesclá-la com muitos tons e formas para que pareça o mais conveniente possível ao nosso padrão ou necessidade. O que faz a verdade ser mutante e ter conotações de “outras faces” é a maneira de apresentá-la. Depende do sentido que se queira representá-la, ainda que seja aproximando-a de similaridades adequadas aos nossos desejos e propósitos. Pouco importa a matiz filosófica ou o sofisma usado. A verdade se impõe pela própria condição de ser a referência sobre algo, seja fato ou dogma. Mas, ainda que torçam e apresentem por ângulos diversos a verdade é inteira, ainda que possa ser usada diversamente.

Nessa guerra de “Verdades Diversas” já não se sabe mais o que é fato ou versão. O que é verdade ou não.

A grande questão e que provoca dificuldades, está na atualidade dos meios de comunicação, nos benefícios tecnológicos facilitadores que aproximam as pessoas e aceleram a interlocução, ainda que virtual. Em tempos de Redes Sociais, Whatsapp, mensagens ultra rápidas da internet, a possibilidade de criar versões sobre a mesma verdade é imensa e incontrolável. Para fazermos um paralelo das situações de antes e depois da internet, temos o fator principal que é a velocidade da informação. Quando um fato está ocorrendo, pela internet ele é sabido quase que instantaneamente. No passado, se algo ocorria, para que a notícia se espalhasse era preciso a publicação dos jornais matutinos e vespertinos. Até mesmo a Rádio, que podia por no ar a informação mais rápido que os jornais, dependia do repórter mandar a informação para a emissora, muitas vezes por telefone (onde a notícia nem sempre era fiel, dependendo da narrativa), ou ainda pelo telégrafo, ou tele-tipos, que era uma forma avançada na época, mais rudimentar aos olhos atuais. Nos dias atuais, a “formação de opinião” não depende apenas dos pensadores e formadores de opinião pública. As pessoas se sentem capazes de emitir conceitos e muitas vezes são tendenciosos e moralistas, influenciando outros menos informados e incapazes. Estes, por sua vez, sentem-se autorizados a difundir estas “verdades”, produzindo um turbilhão de mal entendidos. A formação de grupos e crenças políticas influenciam outras aglomerações sociais, com identificação intelectual e afetiva nas posições políticas e morais. Estes movimentos interferem diretamente em nossas mentes. Esta notícia processada de forma individualizada é novamente emitida pela internet com outras impressões e a distorção se estabelece, gerando inúmeras versões do fato. Todo bom repórter apura a notícia antes de publicá-la. Atualmente, pela competição desenfreada em estar em concordância com a velocidade da informação, afoitamente muitos replicam a informação sem o viés de confirmação. Estes erros grosseiros desmerecem a profissão do jornalismo, além de criar e fomentar aquilo que se habitou chamar de “fake-news”. Muitas vezes a notícia falsa é intencionalmente divulgada, tantas vezes por maus profissionais, que se rendem a remuneração suja e imediata. Há na atualidade um imenso contingente de mercenários da notícia, e a grande maioria não são verdadeiramente jornalistas, mas, como na internet não há qualquer exigência, exponencialmente proliferam as noticias falsas, produzidas por estes falsos profissionais e outros adversos. A verdade passou a ser condicionada pela necessidade e interesses pessoais ou de grupos. Fabrica-se a informação sem nenhum compromisso ético ou verossimilhança. Não há comprometimento com a própria verdade, que dissimulada, disfarçada, utilizada sem escrúpulos, obedecendo aos interesses e à remuneração suja, se prestam a desinformação, ao conflito e perversão, até mesmo ideológica. Nos últimos 15 anos surgiram os chamados blogs sujos. São verdadeiras armadilhas que funcionam sem fiscalização ou controle. A maioria é financiada por dinheiro desviado dos cofres públicos para interesses da manutenção do poder e propósitos eleitoreiros. E este não é um mau exclusivo do Brasil. A América Latina é a campeã dessa perniciosa prática, infestando os espaços da comunicação com lixo ideológico como baratas, podres e ratos de esgoto. Existem também os maldosos e estúpidos vídeos de informações diversas, inclusive sobre ciência, engenharia, saúde e outros, com conteúdos estúpidos, errados, e informações devastadoras. A Internet é um território muito perigoso e cheio de armadilhas. Pode-se construir ou destruir reputações em poucas horas. Os incautos e leigos parecem presas fáceis para estes mau-feitores digitais, que poluem o ambiente, perturbam a ordem social e criam inverdades travestidas. Todo este contexto de distorções possibilitadas pela tecnologia criou-se a figura dos influenciadores digitais. Alguns com talento e conteúdo e muitos pretensos, incultos e oportunistas. Como a grande massa, especialmente no Brasil, é de mediana para baixo, é fácil capturar seguidores que são cooptados e envenenados diariamente por informações cretinas, inverdades absolutas, fazendo com que o ambiente se torne refém de um exercito de “zumbis internáuticos”, sempre ávidos por “opinar” e piorar o que já está muito ruim. A verdade tornou-se artigo de luxo e raro. Poderíamos até sofismando dizer que a verdade se apresenta de forma e ângulos diversos, que é democrático respeitar as interpretações e mutações de uma mesma versão. Entretanto, consideramos um momento adverso e decadente da cultura humana. Existe uma clássica diferença entre um fato e uma versão. Um fato construído verdadeiramente jamais poderá ser distorcido convenientemente em uma versão para se impor como verdadeiro. Nessa atual polarização entre a esquerda e a direita ficou absolutamente impróprio aferir a verdade. Cada um radicaliza suas posições e a esquerda, mais que a direita, não se envergonha de reagir com versões absolutamente falsas e cruéis. São mais profissionais na mentira do que qualquer outro. Por sua vez, reativamente, a direita aceita o jogo e retruca com moedas semelhantes. Precisamos encontrar um caminho de bom senso com leituras de fontes que estão do lado da verdade ou mesmo interpretando os fatos da maneira isenta e fiel à realidade. A alternativa será um caminho de centro e equilíbrio, sem maniqueísmo. A contradição é necessária, mas a verdade é imprescindível.

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