A Saga do Cinema Icaraí

Naturalmente todos ficaram felizes com o resultado final da resolução do caso do Cine Icaraí. Permanecia o impasse e a cada dia que passava a situação se deteriorava mais.

Em tese, parece ser um “final feliz”, mas cabem algumas ponderações, e ainda que se possa dizer que são meras especulações, ninguém peca por exercícios mentais; que na pior das hipóteses serve de aprendizado para situações futuras. É claro que era desejável que o cinema e principalmente o centro cultural fosse empreendido, não apenas por preservar o prédio que faz parte da história do bairro e da cidade, mas pela questão da preservação de um bem cultural; também a reboque vieram outros ganhos, como a criação de uma sede para Orquestra Sinfônica da UFF, a volta do cinema, um centro de atividades culturais e ainda, por último, a criação de um espaço para o “Ballet da Cidade”. Até aqui, concordamos todos.

Entretanto, vamos voltar ao princípio da estória. Não importa se a empresa Polimex comprou barato ou caro e se as intenções de criar um empreendimento não vingaram. Esta é a parte menos importante neste momento. Até porque negócios são feitos para dar lucro, de acordo com as naturais leis do mercado, desde que sejam éticas.

Mas, aí começamos a pensar... E vamos dar asas à imaginação: vamos imaginar que tudo já estivesse combinado entre os três atores da estória. O prefeito, o reitor e o empresário. Cada um fazendo fielmente o seu papel.

A primeira questão é: se a Caixa Econômica Federal, especialista em avaliações considerou que o prédio valia dez milhões e meio, porque a prefeitura avaliou e cobrou o imposto predial na ordem de quatorze milhões? Se o reitor sabia que só dispunha dos dez milhões e meio e o empresário proprietário já havia declarado que não venderia por este preço, como ele esperava conseguir o negócio?

Aí, de repente, aparece o prefeito e desapropria o imóvel, concordando com o reitor, que só dispunha apenas dos dez milhões e meio. O empresário reage e ameaça entrar na justiça, visto que tinha uma prova indefensável que era a avaliação de quatorze milhões feita por que desapropria. Em qualquer tribunal do mundo o empresário venceria a contenda.

De novo... Não mais que de repente, o prefeito que vive a dizer que a prefeitura não tem dinheiro; que não consegue finalizar as obras da Unidade de Saúde do Largo da Batalha; que não pode pagar o aluguel social dos desabrigados do Morro do Bumba; que não asfalta as ruas que prometeu para Região Oceânica; que despediu todos os bailarinos que protestaram contra a falta de um espaço adequado para trabalhar e precisavam de melhores salários; num passe de mágica, apresenta-se como herói, oferecendo a quantia de seis milhões e meio, para resolver a questão. A única contrapartida para os “míseros” seis milhões e meio, é a destinação de um espaço para a criação de um “Corpo de Ballet” que irá criar, visto que dissolveu o anterior.

Aí fica a pergunta: Não ficaria mais barato, terminar as obras do Teatro Popular, e criar um espaço para o “Corpo de Ballet” da cidade? Existiria lugar mais adequado que um teatro para abrigar atividade tão próxima e análoga? Sei que vão alegar que tudo é questão de rubrica e destinação do dinheiro; mas não teria sido fácil demais a aparição benevolente deste dinheiro, que daria para resolver a questão de medicamentos em falta, de melhores condições nas escolas municipais, dar uma forçinha na questão das enchentes de Itaipu, dar uma melhorada nas condições de conservação da cidade, que está literalmente caída?

Nada contra a cultura e arte. Muito pelo contrário, mas temos que ser racionais e adequar os recursos para questões emergenciais. É só uma questão de prioridade. Como já disse, não sou contra a construção de nenhuma torre panorâmica, desde que as necessidades primárias da população estejam equacionadas.

Aí, me faz pensar num grande teatro onde todos “resolvem os seus problemas”, sem que haja críticas e movimentos contrários.

É simples: primeiro implanta-se o caos. Os mendigos podem morar na marquise, com necessidades fisiológicas explicitas; isso sem falar de sexo ao vivo e a cores. Deixa a casa cair... Todos gritam e a casa vai deteriorando. Protestos, tombamentos, destombamentos, desgastes inúteis, para no fim, todos exaustos, surgir um herói com seis milhões e meio na mão, (e que mão benevolente), e resolver tudo numa única canetada.

O reitor conquista o espaço da sua orquestra, o empresário atinge seu objetivo de negócio, recebendo mais do que esperava e um prefeito que anda mal de popularidade, ganha o papel de herói; de resolutivo!!!??.

Agora tem até guarda municipal para tomar conta do prédio, nada de mendigos, visto que o município é um dos “sócios” do lugar.

Somente o povo, massa de manobra inocente e nada atento, surpresos com tanta magnitude e altos propósitos, aplaudem cantando um funk comemorativo: “tá combinado, tá tudo combinado!!!”

“E todos foram felizes para sempre”.

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