A Próxima e Desesperada Eleição Municipal

Eleição é sempre difícil. Quem imagina que é fácil está muito enganado. É penoso, desgastante e muito imprevista. Tudo pode acontecer, especialmente traições e decepções. A eleição municipal é ainda mais difícil pela proximidade do candidato com o eleitor. Envolve relações pessoais, avizinhadas e a cobrança do eleitor é bem maior; e quanto menor for o município mais intima é esta relação e escolha.

Quem não entende nada deste processo acaba aceitando um convite para entrar num Partido e fazer parte da “nominata” (que é a lista de candidatos de cada agremiação partidária), e ser mais um novo candidato a vereador. Por desconhecimento e por uma de ambição ilusória, até por vaidade pessoal, alguns acreditam que este convite é uma afirmação do seu prestígio pessoal, e daí iniciam-se os delírios de poder que a maioria tem. Muitos imaginam que fulano ou beltrano era um cidadão comum e virou governador; e daí acha que também poderá ser facilmente vereador da sua cidade. Ledo engano. Quando acontecem lamentáveis fenômenos como foi a eleição de um Wilson Witsel, dá no que se apresenta. Um fracasso administrativo e aponta para situações muito piores, de desenfreada ambição, corrupção desmedida e com um provável desfecho terrível, de imenso prejuízo para o povo e todo Estado. É provável que ele não venha a ser mais nada na política e será processado, possivelmente condenado e tornar-se mais um triste episódio de “governador na cadeia”. Sua eleição foi oportunista e existiu o momento favorável de apresentação de “novos políticos”, com a expectativa de melhores dias. Todos envolvidos com o fenômeno sociológico-político, que foi a “Onda Bolsonaro”, simplesmente a negação e aversão ao modelo petista, e outros tantos ladrões. Na ansiedade de negar este modelo, o eleitor comete enganos devastadores. Restou o que está acontecendo.

Nas regras eleitorais anteriores a este novo modelo, era possível contar com os tais “puxadores de voto”, que eram os candidatos de grande popularidade e tinham votos para se eleger e eleger outros, mesmo com poucos votos. O coeficiente de votos é um número que resulta da quantidade de eleitores e seus votos, divididos pelo número de cadeiras disponíveis. Nesse modelo (vamos usar o exemplo de Niterói que o coeficiente da última eleição para vereador que foi em torno de 14 mil votos). Um puxador de votos do partido X, supostamente, teve 28 mil votos. Ele se elegia numa coligação e fazia outro eleito na sobra dos 14 mil votos excedentes, ainda que o outro tivesse apenas 400 votos e não fosse do seu partido. Nessa eleição de 2020, a forma mudou. Não vai haver mais coligação de partidos na eleição proporcional. Só será permitida a coligação para o cargo executivo, onde o vice poderá ser de outro partido. Com esta mudança vai endurecer a eleição e cada um vai ter que se garantir apenas com as parcerias internas. Vai ganhar quem tiver mais, o que é bastante lógico. Agora a busca pelo voto vai ser maior e cada partido vai ter que garantir os votos da legenda, pois se não atingir um número suficiente do coeficiente não irá eleger ninguém.

Como Funciona uma Campanha

Acreditamos que o principal problema e solução estão no eleitor. Para o candidato não bastará se tornar conhecido e contar com as promessas de votos. O eleitor, de modo geral, mente. Diz que vai votar e quando chega na hora do voto, ali solitário, faz escolhas muito pessoais, isso quando vota com a sua consciência. Este comportamento é mais comum nas pessoas mais instruídas. O eleitor popular, principalmente aqueles que fazem parte de associações de moradores, agremiações esportivas, sindicatos de trabalhadores, igrejas e de comunidades, este é o mais difícil. Ele vê no seu voto a oportunidade de auferir benefício ou vantagem. Daí, ele passa a negociar com vários candidatos e vai votar naquele que der mais. Maior o benefício, maior a fidelidade. Isso quando não vende o voto descaradamente, e o que é pior, para diversos candidatos simultaneamente. Infelizmente o contingente de voto nessas condições é muito grande, levando a uma disputa febril entre muitos candidatos, onde nada é seguro. Mesmo os candidatos que perigosamente faz alianças com milicianos e traficantes, não tem garantia integral. Nessas comunidades onde existe um “dono”, seja traficante ou miliciano, a regra de controle é mais pesada. Geralmente o candidato paga ao “chefão” por X votos. Este por sua vez põe tudo no nível do terror, avisando se naquela urna especifica não aparecerem tantos votos, muita gente vai pagar, até com a vida. Então começam a fiscalizar e aterrorizar uns aos outros com medo da punição. E a ordem tem que ser cumprida. Mas, mesmo assim, apesar das surras, torturas e até mortes, às vezes o número falha, o que é motivo de muita briga e suspeitas de quem traiu e descumpriu a ordem do “mandatário”. Todo presidente de associação de moradores, diz ter o controle por certa quantidade de votos e tem sempre uma demanda ou necessidade a ser atendida antes da eleição. Só há trato se fizer o combinado antecipadamente. Alguns, mais sérios, conseguem aproximadamente cumprir o prometido, mas, a maioria nunca diz a verdade sobre a quantidade de votos que pode garantir. É sempre uma luta no escuro.

Existem os pastores de pequenas igrejas de denominações diversas. Em geral estes são os mais mentirosos. Nunca possuem o poder que dizem ter e nem controlam quem quer que seja, a não ser uma meia dúzia de comparsas que fazem parte do plano de extorsão dos candidatos. Pastor não tem a força bruta dos milicianos e traficantes, e não têm força moral para exigir o voto. Mas, ainda assim, aparecem centenas de candidatos, muitos deles tão malandros como aqueles que vendem os votos. Um finge que paga e o outro finge que entrega. Um verdadeiro núcleo de safados, testando quem é mais canalha.

Mas, toda campanha requer recursos. Mesmo os acertos mais seguros com alguns líderes de grupos e comunidades demandam despesas e sem dinheiro vivo, não tem acordo nem campanha. O candidato e seus cabos eleitorais precisam se movimentar e necessitam de veículos, fundos para custear despesas mínimas, como combustíveis e alimentação da equipe. Fora as despesas básicas, como a identidade visual do candidato, logomarca, slogan de campanha, aberturas de pequenos comitês eleitorais regionais, e ainda, santinhos, cartazetes, bandeiras, camisetas caracterizadas para a equipe... Tudo significa custos. Alguma coisa consegue-se no partido, com santinhos e bandeiras. No mais, é por conta do candidato.

E aí, começa outro problema: arrecadar fundos para campanha. Pela lógica, com o tal fundo eleitoral partidário, que são verdadeiras fortunas, tudo seria resolvido, entretanto, estes fundos são controlados pelos “caciques” dos partidos, que determinam quanto e para onde vai o dinheiro, assim mesmo, nunca se sabe realmente para onde foram tantos recursos. Quem quer fazer campanha deve bancar sua despesa. Se não tem recursos (que já se torna um obstáculo imenso), vai enfrentar outras dificuldades: a contribuição legal aos partidos e candidatos é permitida, mas, extremamente limitante. Os valores são equivalentes a percentuais mínimos relativos ao declarado à Receita Federal, na última declaração de renda.

Começa por aí. Ou o doador é muito rico e vai fazer uso dessa prerrogativa legal, (vai ser na base do prestígio ou regalos sociais), ou essa quantia vai ser dada por fora. Começa aí o tal Caixa 2, que o candidato que ter que administrar muito bem, caso contrário, os recursos mal gastos vão aparecer indevidamente e irá arranjar problemas sérios com o Tribunal Eleitoral.

Essa é outra grande dificuldade na Campanha de Eleição: arranjar recursos, que os legais são pequenos e insuficientes ou encontrar doadores que aceitem doar sem registro. De modo geral, com lei ou sem lei a maioria dos recursos circulantes numa eleição são frios, ou seja: Caixa 2. Essa manobra do milionário Fundo Eleitoral só atende aos grandes políticos. Numa campanha municipal, no máximo, será beneficiado o candidato a prefeito, e se for uma capital, ou cidade tão expressiva quanto. É praticamente impossível aparecer dinheiro nas mãos de candidatos de cidades do interior, que no caso, Niterói se inclui. Quando muito os partidos vão mandar imprimir santinhos, folhetos e oferecer bandeiras padronizadas para acrescentar o nome do candidato. Isso por conta dele.

Ainda temos como dificuldade real o tempo escasso. Muito pouco tempo para fazer campanha. Até agora, são muito poucos candidatos (a maioria com mandatos atuais) estão com suas campanhas organizadas, com seus fundos disponíveis e seus cabos remunerados. Só está nessa condição o político profissional. Fora isso, a confusão e o desânimo imperam na maioria. Estamos numa pandemia sob a égide da desconfiança e do medo, com um tempo se esvaindo, acumulando incertezas; e sem poder caminhar livremente.

Como fazer campanha eleitoral à distância? Essa estória de se eleger na internet, nas Redes Sociais já passou. Existe uma grande desconfiança do que se propaga nas Redes Sociais, que estão sob fiscalização intensa da Justiça, com uma caça aos tais robôs e perfis falsos. Antigamente, quando postávamos algo interessante, rapidamente, em questão de minutos atingíamos mais de mil pessoas e no final do dia atingíamos 30,40 mil pessoas. Isso acabou. Pode ser a melhor informação, com impulsionamento pago, no final do dia chega-se, no máximo, a 150 pessoas. São muitos filtros e receios do Facebook e Instagran. Uma nova postagem vai direto para as mesmas pessoas. O Whatsapp que no passado podíamos mandar quantas mensagens fosse, e de uma vez; hoje só é permitido mandar de cinco em cinco. Para atingir 5 mil pessoas teremos que mandar mil mensagens. A mensagem mandada por cem aparelhos e com linhas diferentes reduziria para cem mensagens para atingir os mesmo numero de eleitores. Mas, são 100linhas!

A verdade é que essa eleição vindoura está deixando muitos candidatos desesperados, deixando claro que o que seria aparentemente simples ficou muito difícil. Isso contando que com o medo do Coronavirus uma considerável parcela do eleitorado idoso mostra-se resistente a deslocar-se para ir votar. Preferem pagar essa multa mínima, a ter que se expor a possível aglomeração. Na eleição passada tivemos 33% de votos brancos e nulos. Com a pandemia poderemos atingir mais de 50%. Isso vai alterar os números, incluindo o coeficiente eleitoral.

Rua Cônsul Francisco Cruz, 3 - Centro - Niterói/RJ

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