A Mutante Keira Knightley

Alguns atores passam a vida inteira fazendo papéis bastantes similares um do outro, sem que haja alguma ascensão significativa na qualidade do trabalho deles. Por outro lado, outros, realizam uma caminhada promissora na carreia, escolhendo bons papéis e entregando-se mais e mais aos seus personagens. A atriz inglesa Keira Knightley é um excelente exemplo deste segundo grupo. Seu portfólio de filmes não poderia ser mais eclético. Ela já estrelou sagas de aventura como "Piratas do Caribe" e "Star Wars". E fez bonito também em papéis densos como em "Orgulho e Preconceito", "Desejo e Reparação" e "A Duquesa". Em cada nova empreitada, Keira se reinventa, aprimora suas técnicas, "cai de cabeça". Seu brilho é tamanho que em 2006, com apenas 20 anos, foi indicada ao Oscar de Melhor Atriz, por sua atuação no filme "Orgulho e Preconceito" ("Pride and Prejudice", no original). No entanto, creio que o melhor filme – até o momento – da carreira Keira, só chegará em abril aos cinemas. "Um Método Perigoso" ("A Dangerous Method", no original) foi considerado pela Associação dos Críticos de Cinema de Los Angeles o melhor filme de 2011. É inspirado em um livro de John Kerr e tem roteiro assinado por Christopher Hampton. A história começa em 1904, justamente quando o Carl Gustav Jung, psiquiatra residente em Zurique, na Suíça, se depara com o caso de uma jovem que sofre um incontrolável ataque de histeria. A película, então, aborda o triângulo intelectual formado por Sigmund Freud, seu discípulo Jung e a desconhecida Sabina Speilrein, uma psiquiatra que foi paciente dos dois. E, sem dúvidas, é estarrecedora. Na verdade, após assisti-la, fiquei alguns minutos questionando se o filme só é bom porque Keira é a protagonista. Estou certa de que ela é o coração do filme. E, se caso outra atriz tivesse sido escalada, a película poderia ter perdido, e muito, em qualidade. Em "Um Método Perigoso",  a menina Keira dá vida à histérica judia russa, de boa família e muito culta, chamada Sabina, que é internada pelos pais em uma clínica psiquiátrica. Seu tratamento é realizado por ninguém menos que Jung, através de um procedimento inovador e controverso - para a época - apresentado como sendo uma "cura pela conversa". Quem interpreta Jung é o ator alemão Michael Fassbender ("Bastardos Inglórios" e "X-Men: Primeira Classe"). Tenho, particularmente falando, algumas criticas a construção de Jung feita por Fassbender. Em alguns momentos, vejo-o um pouco perdido na imensidão deste papel tão denso. Não é o caso de afirmar que o ator não convença como Jung. No entanto, o brilho de Keira ofusca – até demasiadamente – qualquer tentativa de expressividade do seu colega de cena. Para que ele pudesse realmente aparecer, teria que se esforçar a ponto de fazer jus à estrela Knightley. Aliás, volto a repetir: o furacão Keira rouba a cena. Para se ter uma idéia, logo nos primeiros momentos do filme, Sabina está claramente transtornada e é recepcionada no hospital para tratamento. E, nestes quinze minutos iniciais, temos um show à parte. Quem assistir à película pode prestar atenção no trabalho corporal da atriz, que é estupendo. Keira não é uma mulher de beleza comum. Seus traços são fortes, seu rosto é angular, seus olhos são marcantes. E ela não desperdiça nenhuma destas características durante sua atuação. Seus gestos rígidos e – ao mesmo tempo – precisos, sua mandíbula projetada para frente, sua magreza doentia, seu olhar que fala mais que mil palavras, enfim, sua tradução física do que é a histeria é perfeita. No entanto, preciso fazer justiça também citando Viggo Mortensen ("O Senhor dos Anéis" e "Senhores do Crime") que, na película, dá vida ao pai da psicanálise, Sigmund Freud. Mortensen recebeu indicação para o Globo de Ouro de 2012 na categoria Melhor Ator Coadjuvante por este trabalho. Não é a primeira vez que o ator está no set de filmagens com diretor David Cronenberg ("Spider - Desafie Sua Mente" e "A Mosca"). A primeira parceria aconteceu, em 2005, com "Marcas da Violência" e depois, em 2007, com "Senhores do Crime".  Tanto a atuação de Mortensen como a direção de Cronenberg merecem aplausos. Aliás, o próprio Mortensen questionou a ausência da indicação Cronenberg a alguma premiação, por "Um Método Perigoso". De acordo com o ator, seu amigo diretor está sendo negligenciado enquanto deveria ser reverenciado. Apoiadíssimo, Mortensen! Para quem gosta de diálogos inteligentes, atuações competentes, direção afinada e uma linda paisagem, vale ficar ligado na data de estréia do filme nos cinemas, que deve ocorrer a partir do dia quatro de abril. Vamos torcer para, quem sabe, assistir um filmão como este em Niterói, sem ter que pegar as Barcas - caríssima! - ou a Ponte - congestionadíssima!

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