A Arte de Fazer Comédia

Quem me conhece sabe que eu sou eclética. Vou ao cinema motivada pelos mais diferentes gêneros de filmes. Quando era mais jovem, realmente tinha certa preferência por comédias. Mas o tempo passou, eu amadureci... E, em minha opinião, está cada vez mais difícil assistir a uma comédia de verdade, com diálogos de qualidade, sem aquele ar cômico forçado e artificial. Os pastelões, como se costuma dizer, ganharam espaço e banalizaram o gênero. A grande maioria das comédias, hoje em dia, se limita a contar histórias fúteis e vazias de jovens norte-americanos. Uma pena!

Porém, de vez em quando, um filme aparece para que eu tenha que rever meus conceitos. Nada de muitas locações, nem de efeitos especiais ou um uso desenfreado de palavrões. Nenhum clichê disponível. Até o tema, que poderia ser considerado batido, ganha frescor diante da abordagem diferenciada. E este filme só corrobora a minha ideia fixa de que é necessário muito pouco para alcançar a excelência. “Um Divã para Dois”, a meu ver, foi uma união perfeita de três atores tarimbados que sabiam exatamente como desempenhar seus papéis – e, acreditem: isso é muito raro! Meryl Streep (“Kramer vs. Kramer” e “A Escolha de Sofia”) está impecável como uma dona de casa que tenta resgatar seu casamento, depois de três décadas de união. Vale recordar que este ano, Meryl ganhou o Oscar de melhor atriz por “A Dama de Ferro”, sua segunda estatueta como protagonista e terceira de sua carreira, que já lhe valeu 17 indicações ao prêmio. Tommy Lee Jones (“Onde os Fracos não Têm Vez” e “MIB - Homens de Preto”) dá vida ao marido de Meryl. Um senhor carrancudo, sisudo, fechado, mas de bom coração. No fundo, uma pessoa ótima. Porém, trata-se de um trabalho árduo quebrar a “casca” que o cobre e esconde. E a quem recorrer para nos ajudar nesta missão pra lá de complicada? A um terapeuta de casal experiente, autor de livros e que promete revolucionar a vida a dois em uma semana de cuidados intensivos! Steve Carell (“O Virgem de 40 Anos” e “Amor a Toda Prova”), um dos comediantes mais versáteis da atualidade, mostra que sabe fazer comédia sem apelar. Afinal, fazer rir não é simplesmente fazer palhaçada. Muito pelo contrário. Esta não deve ser a proposta do ator. Ele precisa se desenvolver a ponto de construir um personagem que tenha um viés cômico – e não simplesmente fazer caras e bocas desordenadas, implorando pelo riso da platéia. Esta não é a qualidade da comédia que queremos ver aí.

Este elenco afinado é bem orquestrado pelo diretor David Frankel, responsável por filmes recentes como “O Diabo Veste Prada” e “Marley & Eu”, bem recebidos pelo público e pela crítica. E, em “Um Divã para Dois”, destaco a forma sutil e bela como Frankel dá ritmo a cenas um tanto quanto delicadas de serem gravadas. Pelo fato de o casal ter se distanciado muito nos últimos anos – a ponto de parecerem dois estranhos morando juntos – nem o diálogo restava entre eles. E a esposa sente falta do marido. Não apenas de conversar com ele, mas, percebemos que ela sente saudade do gesto, do toque, da intimidade física que tinham. Devemos levar, portando, em conta, que gravar uma cena de sexo com jovens de 20 anos que estrelam “Malhação” na TV é fácil. Eles tiram a roupa e pronto. Porém, quem assistir ao filme, verá diversas cenas picantes, com protagonistas sexagenários, realizadas com extremo bom gosto. Bem humoradas e sensuais. Tudo no ponto certo. Para quem for ao cinema, uma dica: atenção total nos diálogos da terapia. É fantástico o “timing” do trio de protagonistas. Uma esposa tímida e ao mesmo tempo desabrochando na meia idade. Um marido repleto de ideias aprisionadas na mente sem a coragem de colocá-las em prática – talvez, inclusive, se achando “muito velho” para um mundo de possibilidades que ele, sem dar conta, pode explorar. E um terapeuta inquisidor, determinado e contido. Sem deixar, obviamente, de ser cômico. Vale chamar atenção também para as cenas protagonizadas por Meryl na tentativa de “soltar-se” no quesito sexualidade. O jovem sempre se sente muito a vontade de mudar de opinião, de postura, de inovar. Porém, nunca é tarde para se renovar, se reconstruir, fazer diferente e progredir. Nossa idade não está na carteira de identidade. Está na nossa mente. Ela é que nos limita ou – se permitirmos – nos liberta. Fica a dica!

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