É, no máximo, um blockbuster!

Preciso confessar que a mistura de temas de ação, filosofia e sci-fi me interessam bastante. E determinadas cenas de "Contra o Tempo" ("Source Core", no original) me fizeram recordar o recente "A Origem", o comentado "Efeito Borboleta", o intrigante "Minority Report", o revolucionário "Avatar" e o insuperável "Matrix". Não, "Contra o Tempo" não tem, nem de longe, o brilho das produções citadas. Porém, seria ingenuidade – ou hipocrisia? – da minha parte, acreditar que o diretor, assim como eu, não fez grandes ligações ou até mesmo citações – ou seriam cópias? – de tais filmes na sua película. Como é possível perceber, não é apenas uma questão de ingredientes: a mistura dos mesmos tem que ser bem feita.

"Contra o tempo" é um blockbuster com desejo de ser Cult – mas fica só na vontade. Uma produção razoável, com uma direção um tanto quanto decepcionante de Duncan Jones. Este, que estreou como diretor com brilhantismo, no muito clamado Lunar ("Moon", no original) que, no Brasil, correu direto para as locadoras – injustamente, diga-se de passagem.

Infelizmente, “Contra o Tempo” carece de uma história consistente, de uma perspectiva, de um embasamento. "Avatar", por exemplo, tem uma bandeira, um legado, um tema definido: o questionamento sobre a sustentabilidade – além de ser uma obra prima do cinema, por si só. Neste quesito, "Contra o Tempo" é um filme vazio. Sendo este, um dos tantos motivos pelos quais o considero como sendo um mero blockbuster.

Além disso, “Contra o Tempo” também encapsula o seu "super-herói" e "guerreiro-sofrido-mutilado" em um compartimento, de onde o mesmo, através da força do pensamento e de diversos eletrodos, viaja por meio do código fonte. Com esta descrição, vocês também se lembraram de Avatar? Fizeram alguma ligação à Matrix? Temos aqui um Jake Gyllenhaal tímido, interpretando o Capitão Colter Stevens, ex-piloto de helicóptero em conflitos no Afeganistão, que faz parte de um programa experimental do Governo para investigar um atentado terrorista em andamento. A questão é que ele não sabe que está sendo usado para tal intento. E, para piorar, ele acorda no corpo de um desconhecido – literalmente "incorporado" –, onde é forçado a viver e reviver uma angustiante explosão de trem até que consiga encontrar o responsável pelo atentado.

A única questão realmente interessante no filme é que, enquanto tenta encontrar o terrorista, o Capitão precisa descobrir quem ele é. É uma luta em dobro: salvar a humanidade e, ao mesmo tempo, ganhar uma possível sobrevida. Confuso? Bastante! Posso até afirmar que a primeira meia hora de filme é básica e direta. Por outro lado, parece-me que, nos cinqüenta minutos finais, a tentativa de explicar todos os pormenores da película, aliada a atitude infantil de dar um destino feliz – ou pelo menos razoável – ao Capitão Colter Stevens, acaba garantindo um final bastante morno à "Contra o Tempo".

Outra questão controversa é a própria teoria que sustenta o filme: ao morrer, o cérebro de um ser humano é capaz de gravar os oito últimos minutos de vida. Essa afirmação sugere, então, uma pessoa vistoriando as últimas memórias armazenadas de outra, como a invasão de um computador, por exemplo – daí o nome da película, que jamais poderia ter deixado de ser "Código Fonte" após a tradução, seguindo o original. Porém, o filme deveria se contentar em fazer o que se propõe. Ir além, colocou o filme em risco e “desandou” a receita do bolo. Foi muito arriscado tentar seguir a linha "Efeito Borboleta" e começar a permitir que ações no plano paralelo pudessem produzir efeitos – mesmo que em realidades temporais diversas.

Visitar um arquivo é diferente de mudar a história. Um dispositivo como esse, poderia ser útil em "Minority Report", quando Tom Cruise quisesse prender culpados e impedir futuras violências estudando o cérebro de uma das vítimas. No entanto, mudar o futuro através de uma fugaz visita a um arquivo mental de um morto – visita esta também realizada por um “quase-morto” – em apenas 8 minutos, transborda o limite do razoável.

Em breve nas locadoras.

Rua Cônsul Francisco Cruz, 3 - Centro - Niterói/RJ

2019 | Design By Stilo